Ciro Nogueira busca reeleição no Piauí com encontro sigiloso com Lula na Granja do Torto
Ciro Nogueira se reúne com Lula para negociar apoio à reeleição no Piauí

Encontro sigiloso na Granja do Torto busca acordo eleitoral no Piauí

O senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um encontro discreto realizado na Granja do Torto, residência oficial da Presidência da República. A reunião ocorreu no dia 22 de dezembro, às vésperas do Natal, a pedido do próprio Nogueira e contou com a presença do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba.

Descrita pelos participantes como cordial e produtiva, a conversa não constava da agenda oficial de Lula e teve como principal objetivo a reaproximação política entre o senador piauiense e o petista, em uma articulação conduzida por Hugo Motta. O foco central das tratativas foi a busca de um acordo para viabilizar a reeleição de Ciro Nogueira ao Senado Federal pelo estado do Piauí, atualmente governado pelo PT.

Proposta de pacto eleitoral envolve apoio limitado do PT

De acordo com políticos envolvidos nas negociações, Nogueira propôs um pacto eleitoral em que Lula e o PT apoiariam de forma enfática e exclusiva apenas um candidato ao Senado: o senador Marcelo Castro, do MDB. Como haverá duas vagas em disputa nas eleições de outubro, esse arranjo facilitaria significativamente a recondução do presidente do PP ao cargo.

Um aliado próximo de Ciro Nogueira, ao confirmar a ocorrência do encontro, afirmou que o senador deseja que o governo federal e o partido dos trabalhadores não criem obstáculos à sua candidatura. Em contrapartida, ele acenaria com a neutralidade do PP na disputa presidencial, evitando assim um alinhamento formal com o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente.

O contexto partidário ganha complexidade com a recente formação da federação entre PP e União Brasil, batizada de União Progressista. Juntas, as duas siglas formariam a maior bancada da Câmara dos Deputados e seriam obrigadas por estatuto a atuar em conjunto nas eleições nacionais. Ciro Nogueira é um dos principais líderes dessa federação, que ainda aguarda reconhecimento definitivo pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Relações pessoais e lealdades políticas em jogo

A reunião, confirmada por cinco fontes diferentes, também serviu para reduzir tensões acumuladas entre Lula e Nogueira. Ao final do encontro, os dois trocaram gestos de cordialidade, com um aliado do presidente chegando a afirmar que Lula "gosta de Nogueira" e demonstrou simpatia pela proposta apresentada.

Durante a conversa, o senador ressaltou sua boa relação com Hugo Motta, a quem se referiu como uma espécie de filho político. Nogueira também destacou que permaneceu leal a Jair Bolsonaro até o final do governo, mas lembrou ter sido um dos primeiros políticos de peso a reconhecer publicamente a vitória de Lula nas eleições de 2022, quando setores bolsonaristas ainda resistiam a admitir a derrota.

Esse trecho da conversa foi interpretado por assessores como um sinal claro de que Nogueira poderia manter lealdade institucional ao petista em um eventual novo mandato presidencial. O senador demonstrou preocupação com possíveis vazamentos sobre o encontro e, quando procurado pela imprensa, negou inicialmente que a reunião tivesse ocorrido.

Desafios políticos e resistências internas

A aproximação com Lula tende a gerar desgaste significativo junto ao eleitorado bolsonarista e a políticos de direita, com os quais Nogueira se identificou fortemente nos últimos anos. Além disso, um eventual acordo enfrenta resistência considerável dentro do PT do Piauí.

O governador Rafael Fonteles e o ministro Wellington Dias, ambos do PT, não teriam sido informados sobre a reunião na Granja do Torto. O presidente estadual do partido, Fábio Novo, disse desconhecer completamente as tratativas e lembrou que Nogueira se elegeu senador duas vezes com apoio de Lula antes de romper politicamente. "Não temos o direito de errar uma terceira vez", afirmou Novo em tom de advertência.

A chapa articulada pelo PT no estado inclui atualmente o deputado Júlio César, do PSD, como pré-candidato ao Senado. Uma mudança nessa composição poderia desagradar ao presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, importante aliado de Lula no Congresso Nacional.

Panorama eleitoral no Piauí e trajetória política

O Piauí apresenta um cenário eleitoral majoritariamente favorável a Lula. Em 2022, o petista obteve impressionantes 76,8% dos votos válidos no segundo turno contra Jair Bolsonaro. Por isso, líderes políticos locais avaliam que candidatos com apoio explícito do Planalto possuem vantagem considerável nas disputas estaduais.

Ainda assim, aliados reconhecem que Ciro Nogueira mantém uma base sólida entre prefeitos piauienses, incluindo alguns filiados ao próprio PT. Em 2018, o senador foi reeleito exatamente com o apoio decisivo de Lula e do partido dos trabalhadores. Após a derrota de Fernando Haddad na eleição presidencial daquele ano, Nogueira aproximou-se progressivamente de Bolsonaro, assumindo a chefia da Casa Civil em 2021 e conduzindo o PP ao alinhamento com o bolsonarismo.

Com a ausência de Jair Bolsonaro do cenário eleitoral presidencial, Nogueira passou a apoiar inicialmente Tarcísio de Freitas, do Republicanos, mas agora avalia cuidadosamente como lidar com a candidatura de Flávio Bolsonaro. A direção nacional do PP pode optar por liberar seus filiados para apoiar diferentes projetos nacionais, estratégia que daria flexibilidade ao partido nas negociações políticas.

O encontro na Granja do Torto representa, portanto, um movimento estratégico complexo em um ano eleitoral decisivo, com implicações que vão desde as disputas estaduais no Piauí até o equilíbrio de forças no cenário político nacional.