Padre evita processo por intolerância religiosa contra Preta Gil após acordo com MPF
Padre faz acordo com MPF por intolerância contra Preta Gil

Padre assina acordo para evitar ação penal por declarações sobre Preta Gil

O padre Danilo César formalizou um acordo com o Ministério Público Federal (MPF) que o isenta de responder criminalmente por suposta intolerância religiosa contra a cantora Preta Gil. O religioso havia sido denunciado no ano passado após fazer comentários considerados discriminatórios durante uma missa no Agreste da Paraíba.

Condições do acordo homologado pela Justiça Federal

Segundo a homologação da juíza federal Cristiane Mendonça Lage, obtida pela reportagem, o pároco assinou um termo de confissão no qual reconhece a conduta considerada discriminatória. Com isso, comprometeu-se a cumprir uma série de medidas educativas para evitar a abertura de ação penal.

Entre as exigências estabelecidas no documento estão:

  • Realização de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados reconhecidos, inclusive na modalidade a distância
  • Produção de resenhas manuscritas das obras A Justiça e a Mulher Negra (Lívia Santana) e Cultos Afro-Paraibanos (Valdir Lima), além do documentário Obatalá, o Pai da Criação
  • Entrega das três resenhas e comprovação de pelo menos 20 horas de cursos até o final de junho
  • Pagamento de uma prestação pecuniária de R$ 4.863, destinada à AACADE (Associação de Apoio a Comunidades Afrodescendentes), via Pix, no prazo de cinco dias
  • Participação obrigatória em um encontro inter-religioso, articulado com o MPF, com representantes de diferentes crenças e familiares de Gilberto Gil

Consequências em caso de descumprimento

O acordo ainda determina a participação do sacerdote em um ato inter-religioso, ao lado de representantes da Igreja Católica e de religiões de matriz africana, com a presença de integrantes da família de Preta Gil, em João Pessoa. Caso descumpra as condições estabelecidas, o documento assinado poderá ser utilizado como prova em eventual reabertura da ação penal.

Contexto das declarações do padre

Durante a homilia de julho de 2025, o padre afirmou que "Deus sabe o que faz" ao se referir à morte de Preta Gil, ocorrida em 20 de julho daquele ano, e fez comentários de teor irônico sobre religiões de matriz africana.

"Eu peço saúde, mas não alcanço saúde, é porque Deus sabe o que faz, Ele sabe o que é melhor para você, que a morte é melhor para você. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?", disse o sacerdote na ocasião.

Em outro momento, afirmou torcer para que "o diabo leve" cristãos que procuram "coisas ocultas". "Tem católico que pede essas coisas ocultas. Eu só queria que o diabo viesse e levasse. No dia seguinte, quando acordar lá, acordar com calor no inferno, você não sabe o que vai fazer", declarou.

Notificação extrajudicial de Gilberto Gil

Além da atuação do MPF, o cantor Gilberto Gil enviou uma notificação extrajudicial à Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia de Areial, e ao padre Danilo César, cobrando uma retratação pública pelas declarações. A reportagem entrou em contato com a defesa do padre e com a Diocese de Campina Grande para obter posicionamento, mas ainda não houve manifestação oficial.

O acordo representa uma solução alternativa ao processo judicial, focando em medidas educativas e reparatórias em vez de sanções penais tradicionais. A iniciativa busca promover conscientização sobre diversidade religiosa e combater práticas discriminatórias no âmbito religioso.