Trabalhadores norte-coreanos enfrentam jornadas de 16h e salário de US$ 10 na Rússia
Norte-coreanos trabalham 16h por US$ 10 na Rússia

Trabalhadores norte-coreanos enfrentam condições desumanas na Rússia com salários de apenas US$ 10

Um relatório divulgado nesta quarta-feira pela organização Global Rights Compliance, sediada na Holanda, revela um cenário alarmante de exploração e violações de direitos humanos enfrentado por trabalhadores norte-coreanos enviados à Rússia. O documento, baseado em entrevistas com 21 cidadãos que atuaram em canteiros de obras no país, descreve jornadas exaustivas que chegam a 16 horas diárias, vigilância constante e salários que podem ser reduzidos a meros US$ 10 por mês.

Condições de trabalho desumanizantes e violação de sanções

Os depoimentos coletados pela organização apontam para uma realidade marcada pela desumanização. Um trabalhador de 50 anos descreveu sentir que suas vidas não tinham valor, comparando-se a insetos diante dos tratamentos recebidos. As jornadas de trabalho frequentemente ultrapassam 12 horas, com poucos ou nenhum dia de descanso ao longo do ano, configurando uma situação que a Global Rights Compliance avalia como trabalho forçado, conforme definição da Organização Internacional do Trabalho.

Esta prática contraria diretamente as sanções impostas pela Organização das Nações Unidas, que proíbem a concessão de permissões de trabalho a cidadãos norte-coreanos e determinam o retorno daqueles que obtêm renda fora de suas fronteiras. Apesar disso, estimativas da própria ONU indicavam, em 2024, a presença de mais de dez mil trabalhadores norte-coreanos em cerca de 40 países, com o governo de Pyongyang utilizando esse mecanismo para captar divisas internacionais, arrecadando centenas de milhões de dólares anualmente.

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Vida em contêineres e vigilância permanente

As condições de vida descritas pelos trabalhadores são extremamente precárias. Muitos relataram viver em contêineres adaptados como dormitórios, sem aquecimento adequado e compartilhados por até 20 pessoas. Os locais sofrem com infestações de insetos e oferecem acesso limitado a itens básicos de higiene, com alguns trabalhadores afirmando que podiam tomar banho apenas uma ou duas vezes por ano.

A vigilância sobre os trabalhadores é constante e abrangente. Eles são monitorados não apenas por supervisores, mas também por colegas, criando um ambiente de medo permanente. Um dos entrevistados relatou que qualquer tentativa de acessar conteúdos estrangeiros poderia resultar em punições severas, incluindo o retorno forçado à Coreia do Norte para interrogatório. Um trabalhador de 64 anos descreveu viver sob a sensação permanente de estar sendo observado, afirmando que "essa ansiedade psicológica é a parte mais difícil".

Exploração financeira sistemática e ameaças familiares

O processo de exploração começa antes mesmo da chegada ao destino. Para garantir uma vaga no exterior, os trabalhadores relatam o pagamento de propinas. Ao chegarem à Rússia, enfrentam cotas mensais obrigatórias que variam entre US$ 400 e US$ 750, que precisam ser cumpridas a qualquer custo.

Embora o salário médio declarado seja de cerca de US$ 800 por mês, descontos relacionados a custos de viagem, alimentação e taxas impostas pelo Estado reduzem drasticamente o valor recebido. Em alguns casos extremos, o montante final fica próximo de US$ 10. Dívidas não quitadas são transferidas para períodos seguintes, forçando os trabalhadores a aceitar atividades paralelas arriscadas.

O não cumprimento das cotas pode impedir futuras oportunidades no exterior e, em situações mais graves, resulta em cobranças feitas diretamente às famílias que permanecem na Coreia do Norte, com relatos de intimidação e violência. O relatório também reúne denúncias de agressões físicas, espancamentos e pessoas obrigadas a continuar trabalhando mesmo após sofrer ferimentos.

Mobilidade limitada e evasão de responsabilidades

A mobilidade dos trabalhadores é severamente restrita. Passaportes são confiscados, comunicações são monitoradas e o acesso a telefones é limitado. Muitos afirmam sequer saber o nome das empresas para as quais prestam serviço, o que dificulta a responsabilização legal e favorece a evasão de sanções internacionais.

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Segundo o relatório, parte desses trabalhadores foi enviada para suprir a escassez de mão de obra na Rússia durante o conflito com a Ucrânia. A Global Rights Compliance defende que governos e organismos internacionais ampliem a fiscalização e adotem medidas de proteção imediata.

Kim Ye-ji, assessora da entidade para assuntos da Coreia do Norte, destacou a urgência da situação: "É necessário garantir condições básicas, como jornadas razoáveis, pagamento integral e mecanismos seguros para que esses trabalhadores possam deixar situações de exploração sem sofrer represálias".

O relatório serve como um alerta sobre as graves violações de direitos humanos que continuam ocorrendo, mesmo diante de sanções internacionais, e sobre a necessidade urgente de ações concretas para proteger trabalhadores vulneráveis em contextos de exploração transnacional.