Justiça tenta novamente despejar famílias em área disputada com empresa em Boa Vista
Justiça tenta despejar famílias em área disputada em Boa Vista

Justiça tenta novamente cumprir ordem de despejo em área disputada no Mecejana

A Justiça realiza, nesta quarta-feira (4), a segunda tentativa de retirar moradores de uma área em disputa com a empresa Frangonorte no bairro Mecejana, em Boa Vista, Roraima. A ação conta com a presença de um oficial de Justiça, representantes da empresa e policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que buscam cumprir uma ordem de despejo judicial.

Conflito fundiário de longa data

Entre 15 e 20 famílias vivem no local, que tem aproximadamente 37 mil metros quadrados atrás de um hotel na avenida Glaycon de Paiva. A Frangonorte afirma ser proprietária da área e move um processo judicial há pelo menos duas décadas para obter a posse do terreno. A ação em curso é uma imissão de posse, medida utilizada quando o proprietário busca assumir o imóvel pela primeira vez.

Na terça-feira (3), houve uma primeira tentativa de retirada dos moradores, que não foi concluída. Antes da chegada da polícia e do oficial de Justiça nesta manhã, alguns residentes começaram a retirar móveis das casas e colocá-los do lado de fora, enquanto outros decidiram deixar a área voluntariamente.

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Moradores pedem prazo e enfrentam incertezas

A Rede Amazônica apurou no local que os moradores não questionam a decisão de despejo, embora não concordem com ela, e solicitam mais tempo para organizar a saída e encontrar outro local para morar. Um dos afetados é o aposentado Roberto Conte Maciel, conhecido como seu Alberto, de 76 anos, que vive no local desde 2012.

"A única coisa que a gente tem na vida é a vida dada por Deus e uma casa para morar. Quando tiram o teu teto, como você vai se sentir?", questionou ele, descrevendo a noite após a notificação como de "tormento". Seu Alberto já alugou uma casa em outro bairro e retirou seus pertences do imóvel.

Empresa busca solução pacífica, mas cumpre decisão judicial

Representantes da Frangonorte acompanham a ação e enviaram funcionários para derrubar, com marretas, algumas cercas de madeira dos imóveis. Mário Menezes, representante da empresa, esteve no local e afirmou que a ideia inicial é resolver a questão de maneira pacífica, sem demolição de casas.

"Saiu a sentença de transitado em julgado e o dever de cumprir essa sentença da emissão de posse. E está acontecendo agora, infelizmente", disse ele, acrescentando que a empresa sempre buscou uma conciliação, mas que a medida agora precisa ser cumprida devido à decisão judicial final.

Disputa judicial e exceções para algumas famílias

De acordo com os moradores, o processo judicial foi iniciado em 2012, quando o dono da empresa se apresentou como proprietário da área. Eles alegam que a empresa nunca ofereceu um acordo de indenização ou possibilidade de permanência. O caso tramita na 3ª Vara Cível de Boa Vista.

Em meio ao conflito, a Defensoria Pública de Roraima acionou a Justiça para garantir a permanência de seis famílias que vivem na área há pelo menos 15 anos. Em dezembro de 2025, uma decisão autorizou que elas continuassem no local, portanto, a ação de despejo desta quarta-feira não deve atingi-las.

Histórico de demolições e medo constante

A estudante Daiane Rodrigues Garcia, de 22 anos, é uma das moradoras protegidas pela decisão de dezembro. Ela vive na área desde os três meses de idade e relata viver com medo constante de perder sua casa.

"A gente fica com medo, tipo, de amanhã chegar e sair uma decisão a gente vai para onde? A gente fica com medo porque não tem para onde ir. A gente ficou até se tremendo assim, com medo, porque foi praticamente a mesma coisa que aconteceu [com a mãe]", contou ela ao g1.

Daiane já vivenciou situação semelhante em 2019, quando a casa de sua mãe, que ficava no terreno, foi derrubada. Atualmente, ela mora no local com o irmão, a cunhada, a filha e as sobrinhas, em uma das casas que permanecerão de pé devido à intervenção da Defensoria Pública.

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Durante a primeira tentativa de despejo na terça-feira, moradores estacionaram carros em frente às casas como forma de proteção contra possíveis derrubadas, demonstrando a tensão e a resistência pacífica da comunidade. O impasse no cumprimento da decisão judicial que favorece a Frangonorte continua, com as famílias restantes aguardando o desfecho desta segunda tentativa de retirada forçada.