Deputados progressistas buscam uniformização no STF sobre consentimento em crimes sexuais com menores
Um grupo de parlamentares de partidos progressistas apresentou formalmente um requerimento à Procuradoria-Geral da República solicitando que a entidade leve ao Supremo Tribunal Federal a discussão crucial sobre o consentimento em casos de estupro envolvendo menores de 14 anos. A iniciativa surge como resposta direta a um polêmico julgamento ocorrido em Minas Gerais que gerou ampla repercussão nacional.
O caso mineiro que motivou a ação parlamentar
A decisão da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de uma menina de 12 anos, serviu como catalisador para a mobilização dos deputados. Os magistrados mineiros entenderam que existia um "núcleo familiar" na relação, considerando-a uma exceção à regra legal.
Fernanda Melchionna (PSOL-RS), Sâmia Bonfim (PSOL-SP), Helóisa Helena (Rede-RJ) e Fábio Felix (PSOL-DF) são os parlamentares que assinam o pedido, argumentando que a legislação brasileira já estabelece claramente que vítimas menores de 14 anos não possuem capacidade plena para consentir em relações sexuais.
O marco legal brasileiro e suas interpretações
A legislação nacional incorporou o crime de estupro de vulnerável com idade-limite de 14 anos no Código Penal em 2009, fundamentado no entendimento de que crianças e adolescentes nessa faixa etária não têm desenvolvimento completo nem capacidade total para compreender plenamente tais situações e exercer direito de escolha consciente.
Os deputados destacam em seu requerimento que "relações marcadas por abismo etário e evidente assimetria de poder não podem ser legitimadas como entidade familiar" sem distorcer gravemente o artigo 227 da Constituição Federal e o sistema de garantias do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Consequências judiciais e investigações em curso
A decisão do TJ-MG e o desembargador relator do caso, autor do voto que absolveu o acusado, tornaram-se alvo de investigação no Conselho Nacional de Justiça. O processo está atualmente sob segredo de Justiça, mas já gerou intenso debate no meio jurídico e na sociedade civil.
Os parlamentares mencionam em seu pedido outras decisões judiciais que trataram situações semelhantes de violência sexual contra meninas como "exceções", resultando na absolvição dos agressores. Eles argumentam que os direitos fundamentais de crianças e adolescentes são indisponíveis e não podem ser relativizados por escolhas individuais, pressões sociais ou interpretações que naturalizem situações de exploração sexual.
O objetivo central da iniciativa parlamentar
A proposta central dos deputados é que a PGR apresente uma ação perante o Supremo Tribunal Federal para uniformizar a interpretação dos juízes sobre esses casos. Eles defendem que deve prevalecer o entendimento de que menores de 14 anos não têm condições de consentir em relações sexuais, independentemente de circunstâncias contextuais apresentadas como justificativas.
Esta movimentação política ocorre em um momento de crescente atenção sobre a proteção de crianças e adolescentes no Brasil, com debates intensos sobre como o sistema judiciário aplica a legislação existente em casos sensíveis envolvendo violência sexual.



