Desaparecimento de Laura Vitória em Palmas é denunciado à ONU após uma década sem esclarecimentos
O caso do desaparecimento de Laura Vitória Oliveira da Rocha, ocorrido em Palmas no dia 9 de janeiro de 2016, ganhou repercussão internacional após ser formalmente denunciado à Organização das Nações Unidas (ONU) pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) Glória de Ivone. A medida foi tomada exatamente dez anos após o sumiço da menina, que tinha apenas 9 anos na época, em razão de graves falhas apontadas nas investigações conduzidas pelas autoridades locais.
Falhas estruturais nas investigações motivam denúncia internacional
De acordo com Mônica Brito, secretária-executiva do Cedeca Glória de Ivone, a decisão de levar o caso à ONU foi motivada pela identificação de uma série de inconsistências e omissões nos procedimentos investigativos. Entre os principais problemas destacados estão a demora no início das buscas, que só começaram após mais de 24 horas do desaparecimento, além de sucessivas mudanças nas delegacias responsáveis pelo caso, sem que houvesse avanços concretos nas apurações.
"Temos dez anos que se passaram, período em que o inquérito policial deveria ter sido concluído. Desde o momento em que a família comunicou o desaparecimento à delegacia, houve falhas nos procedimentos, como a demora nas buscas por Laura, na comunicação a postos, aeroportos e hospitais", afirmou Mônica Brito. A organização ainda aponta longos períodos de inércia, com registros de mais de 500 dias sem diligências sendo realizadas.
Arquivamento do caso no Ministério Público agrava situação
Em junho de 2025, o procedimento instaurado no Ministério Público do Estado do Tocantins (MPE) para análise e eventual intervenção no caso foi arquivado sob a justificativa de que não existiam novos elementos que justificassem a continuidade das investigações. Este arquivamento ocorreu mesmo após o Cedeca ter encaminhado ofícios e feito pedidos formais ao MPE entre junho e outubro de 2020, cobrando avanços nas apurações.
A reportagem tentou contato com o Ministério Público do Estado para obter esclarecimentos sobre o arquivamento, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) também foi procurada para informar sobre o andamento atual das investigações, mas não se manifestou.
Relembrando os fatos: o desaparecimento que completa uma década
Laura Vitória foi vista pela última vez na manhã de 9 de janeiro de 2016, por volta das 10h30, quando saiu de casa na região sul de Palmas com destino a um supermercado. Imagens de câmeras de segurança mostram a menina entrando no estabelecimento às 11h17 e saindo menos de três minutos depois, carregando uma sacola. Desde então, nenhum vestígio dela foi encontrado.
Na época do desaparecimento, familiares realizaram buscas exaustivas na região, incluindo áreas de mata e imóveis abandonados, mas sem sucesso. Em 2016, um suspeito chegou a ser preso, mas foi liberado por falta de provas concretas. Um ex-namorado da mãe de Laura, Sione Pereira de Oliveira, também foi ouvido pelas autoridades e posteriormente liberado.
Tragédia familiar se aprofunda com assassinato da mãe
O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos quando, em 15 de setembro de 2017, a mãe de Laura Vitória, Sione Pereira de Oliveira, foi assassinada por um policial penal durante uma discussão em uma distribuidora de bebidas no Jardim Aureny III, região sul de Palmas. Em 2025, o policial penal Robson Dante Gonzaga Santana foi condenado a mais de 18 anos de prisão pelo crime, com perda do cargo público.
Embora não haja informações oficiais que relacionem diretamente o assassinato da mãe ao desaparecimento da filha, a sequência de eventos trágicos na família evidencia a vulnerabilidade enfrentada pelos envolvidos. Inicialmente, a polícia trabalhou com a hipótese de que o desaparecimento de Laura poderia ter relação com o tráfico de drogas, já que o pai da menina cumpria pena por esse crime na Casa de Prisão Provisória de Palmas.
Objetivo da denúncia à ONU: responsabilização do Estado
O Cedeca afirma que a denúncia internacional tem como objetivo principal responsabilizar não apenas o Estado do Tocantins, mas também o Estado brasileiro pela ausência de esclarecimentos sobre o paradeiro de Laura Vitória após uma década. "O caso da Laura teve diversas falhas estruturais desde o início. A investigação demorou para começar e passou por sucessivas mudanças de delegacia, sem que o caso avançasse", reforçou Mônica Brito.
A organização ainda destaca que, ao longo desses dez anos, a família enfrentou dificuldades significativas no acesso a informações e na ausência de apoio adequado por parte do poder público. Com a denúncia à ONU, espera-se que pressão internacional possa finalmente trazer respostas sobre o que aconteceu com Laura Vitória Oliveira da Rocha, cujo desaparecimento completa uma década sem solução.



