Advogado brasileiro relata pesadelo de prisão no Catar por 'trejeitos femininos'
O advogado Dennis van Wanrooij, de 40 anos, viveu um pesadelo durante uma breve estadia no Catar. Em depoimento exclusivo, ele descreve os três dias de terror em que foi preso, interrogado e humilhado pelas autoridades locais simplesmente por ser considerado "muito feminino". Esta história chocante de intolerância e arbitrariedade joga luz sobre os perigos enfrentados pela comunidade LGBTQIA+ em nações onde a orientação sexual ainda é criminalizada.
Uma viagem de trabalho que se transformou em pesadelo
Dennis van Wanrooij nunca imaginou que sua escala em Doha, capital do Catar, durante uma viagem profissional ao Nepal, se tornaria uma experiência traumática. Como advogado bissexual com atuação em defesa dos direitos LGBTQIA+, ele sempre teve cuidado ao visitar países com legislações restritivas. "Já estive em lugares como Zimbábue e Irã, onde sabia que precisava adotar uma postura mais discreta", relata. No entanto, nada o preparou para o que aconteceu no Catar.
Ele e seu marido, Ivens, optaram por um hotel cinco estrelas em uma área considerada segura e limitaram seus passeios a pontos turísticos. Tudo parecia normal até a noite em que, após o jantar, Dennis decidiu comprar um sorvete em uma praça movimentada. Enquanto procurava seu marido, foi abordado por um homem que mostrou um crachá e falou em árabe. Em instantes, mais indivíduos surgiram, identificando-se como policiais e anunciando sua prisão.
Interrogatório humilhante e detenção arbitrária
Na delegacia, localizada a poucos metros do local da abordagem, seus pertences foram confiscados. Quando Ivens chegou em busca de informações, também foi detido. O casal foi levado a uma sala para um interrogatório exaustivo. "Uma agente afirmou, sem rodeios, que eu era 'muito feminino'", conta Dennis. As perguntas giravam em torno de sua identidade de gênero, sexualidade e roupas, além de investigações sobre possíveis relacionamentos com cidadãos catarianos.
Após três horas, Ivens foi liberado, mas Dennis permaneceu detido. "Saí algemado da delegacia, sem saber para onde estava sendo levado", descreve. No carro, uma mistura de ódio, raiva e medo o fez chorar descontroladamente. "Com as regras sendo inventadas na hora, achei que poderia morrer", revela.
Solidariedade inesperada e táticas de humilhação
Após quarenta minutos, ele chegou a uma nova prisão, onde um policial, surpreendentemente, mostrou compaixão. "Ele me aconselhou a parar de chorar e pedir desculpas para ser solto", lembra Dennis. Seguindo a orientação, ele se desculpou perante autoridades que o haviam humilhado. Na cela, encontrou outros detentos da comunidade LGBTQIA+, incluindo uma mulher trans britânica que vivia em Doha e confirmou a frequência dessas prisões.
Os policiais constantemente os insultavam, uma tática deliberada para minar sua autoestima. "É um método comum em ditaduras: fazer você se sentir pequeno até enlouquecer", analisa o advogado. Após dezesseis horas, ele foi liberado tão abruptamente quanto fora preso, com a advertência de que seria pior se retornasse ao país.
Alerta global e luta contra a intolerância
De volta a São Paulo, onde reside, Dennis decidiu romper o silêncio imposto pelos documentos que assinou no Catar. "É crucial falar para evitar que outros passem por isso", enfatiza. Ele ressalta que, embora mais de trinta países tenham descriminalizado a homossexualidade nas últimas duas décadas, ainda existem 65 nações onde ser LGBTQIA+ é crime. "Isso é intolerável no século XXI", conclui.
O gerente do hotel onde se hospedava no Catar revelou que incidentes similares ocorrem semanalmente com hóspedes estrangeiros, destacando a sistematicidade do problema. A história de Dennis van Wanrooij serve como um alerta urgente sobre os riscos enfrentados por viajantes LGBTQIA+ e a necessidade contínua de advocacy por direitos humanos globais.