Relatório da ONG revela retrocesso democrático global alarmante
Um estudo abrangente divulgado pela organização internacional Human Rights Watch nesta quarta-feira (4) apresenta dados preocupantes sobre o estado da democracia no mundo contemporâneo. Segundo a análise detalhada, que examina a situação dos direitos humanos em mais de cem países, aproximadamente 72% da população mundial vive atualmente sob regimes classificados como autoritários.
Democracia regride aos níveis históricos de 1985
A pesquisa indica que a democracia global sofreu um retrocesso significativo, retornando aos patamares observados em 1985. "A democracia está agora de volta aos níveis de 1985, de acordo com alguns estudos", afirma o relatório, destacando que nações como Rússia e China apresentam hoje menos liberdades do que há duas décadas. Os Estados Unidos também são mencionados neste contexto de declínio democrático.
Classificação detalhada dos regimes políticos
O documento se baseia no estudo "25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?", realizado pela Universidade de Gotemburgo na Suécia em 2025, que analisa a evolução política dos países desde 1974. A classificação divide quase duzentas nações em seis categorias distintas:
- Autocracia fechada: 35 casos onde não existem eleições multipartidárias para o Poder Executivo e faltam componentes democráticos fundamentais
- Autocracia eleitoral: 51 países com eleições multipartidárias, mas com níveis insuficientes de liberdades fundamentais
- Autocracia zona cinzenta: 4 nações com classificação incerta
- Democracia zona cinzenta: 13 países com sobreposição de características
- Democracia eleitoral: 46 nações com eleições livres e justas e liberdades satisfatórias
- Democracia liberal: 29 países com proteção ampla de liberdades civis e igualdade perante a lei
Posicionamento específico das principais potências
O Brasil é classificado como uma "democracia eleitoral", enquanto Estados Unidos, França e Espanha aparecem como "democracias liberais". Em contraste, a Rússia é identificada como uma "autocracia eleitoral" e a China como "autocracia fechada", demonstrando a diversidade de regimes que coexistem no cenário internacional atual.
Trump é apontado como catalisador do avanço autoritário
O relatório atribui ao primeiro ano do novo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos um papel significativo no que denomina "avanço autoritário" global. A análise destaca que o presidente americano "encorajou líderes autoritários e minou aliados democráticos", enquanto simultaneamente expressava admiração por movimentos políticos de extrema direita na Europa.
Ameaças ao sistema global de direitos humanos
A Human Rights Watch questiona abertamente se "os direitos humanos sobreviverão à era Trump", enumerando uma série de ações que colocariam em risco o sistema internacional de proteção a essas garantias fundamentais. Entre as medidas criticadas estão:
- Ataque à Venezuela e captura de Nicolas Maduro
- Deportação de imigrantes para prisões em El Salvador
- Ataques à independência judicial nos Estados Unidos
- Desestabilização da confiança nos processos eleitorais
- Uso do poder governamental para intimidar opositores políticos
- Retirada dos EUA do Conselho de Direitos Humanos da ONU
- Redução de programas de assistência alimentar e subsídios à saúde
- Remoção de proteções a pessoas trans e intersexuais
"A política externa de Trump abalou os alicerces da ordem internacional regida por leis", afirma categoricamente o documento da organização não governamental.
China e Rússia ampliam pressão sobre direitos humanos
Além da influência norte-americana, o relatório destaca a "pressão implacável" exercida por China e Rússia contra os direitos humanos em escala mundial. As três potências são apresentadas como forças convergentes no enfraquecimento das estruturas democráticas internacionais.
Estratégias para conter o retrocesso democrático
Como resposta a esta tendência preocupante, o documento sugere que os governos comprometidos com os direitos humanos formem "uma aliança estratégica" com movimentos sociais, sociedade civil e instituições internacionais. Philippe Bolopion, diretor-executivo da HRW, defende que "para enfrentar essa tendência, os governos que ainda valorizam os direitos humanos precisam se unir para conter retrocessos".
Análise específica sobre o Brasil
No capítulo dedicado ao Brasil, a organização enfatiza a necessidade de reformulação nas políticas de segurança pública, com atenção especial à infiltração de facções criminosas no Estado. A HRW recomenda que autoridades brasileiras conduzam "investigações aprofundadas e baseadas na inteligência" para identificar conexões entre criminosos e agentes públicos.
"As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local", alerta o relatório, caracterizando esta dinâmica como "uma face muito perigosa do crime organizado".
Segurança como tema central das eleições brasileiras
O documento prevê que a segurança pública será "questão importante" nas eleições presidenciais brasileiras de outubro, refletindo pesquisas de opinião que indicam crime e violência como principais preocupações para 41% da população. Esta constatação reforça a relevância do debate sobre políticas públicas de segurança no contexto democrático nacional.