Empreendedora de BH cria roupas com braille e fatura R$ 97 mil em um ano
Roupas com braille: empreendedora de BH fatura R$ 97 mil

Empreendedora transforma desafio visual em negócio de moda inclusiva em Belo Horizonte

Escolher uma roupa no guarda-roupa pode parecer uma tarefa trivial para a maioria das pessoas, mas para quem convive com deficiência visual, esse ato cotidiano se transforma em um verdadeiro obstáculo. Em Belo Horizonte, capital mineira, essa dificuldade inspirou uma iniciativa empreendedora com propósito social: a criação de peças de vestuário que incorporam estampas em braille, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão identifiquem suas roupas de forma autônoma.

Da inspiração à concretização: uma jornada de pesquisa e superação

A idealizadora desse projeto é Cíntia Caroline, uma empreendedora que encontrou na própria experiência familiar com confecções o ponto de partida para sua missão. A ideia surgiu durante um curso de braille, quando amigos com deficiência visual compartilharam com ela as estratégias complexas que precisavam adotar para se vestir, como decorar cada peça por detalhes específicos.

"Aquela blusa com aquela golinha, uma blusa verde, aquela que tem uma manga diferente é uma blusa azul. Aquela tem um botão e uma blusa branca", relata Cíntia, reproduzindo os depoimentos que ouviu. Diante desses relatos, ela percebeu uma oportunidade de inovação: "Eu falei: gente, eu preciso conseguir colocar braille no tecido. Não sei como, mas a gente tem que fazer isso acontecer".

O caminho até a solução prática exigiu persistência e muita experimentação. A empreendedora testou diversos tipos de tecidos e tintas, sempre validando os protótipos com amigos que têm deficiência visual. A leitura tátil no tecido se mostrou um desafio técnico considerável, muito mais complexa do que a leitura em papel. Após várias tentativas, um protótipo finalmente funcionou.

"Levei pra ele… quando ele pegou aquela camiseta e leu tudo da camiseta perfeitamente… pronto. Aí eu falei: é isso que eu quero fazer da vida", conta Cíntia, emocionada com o momento de descoberta.

Precisão técnica e significado emocional: os pilares da produção

As peças são confeccionadas por meio de serigrafia, com um volume de tinta cuidadosamente calculado para garantir a legibilidade ao toque. A precisão é absolutamente crucial nesse processo. "Não pode ter erro nenhum… criar uma distância maior do outro, porque isso já transforma a palavra", explica a empreendedora. Cada item passa por uma conferência manual minuciosa para verificar a qualidade do relevo.

Além da funcionalidade, as roupas carregam um componente emocional e social. Elas apresentam informações sobre cor, tamanho e mensagens escritas em braille. Um detalhe especialmente pensado para promover interação humana é uma frase aplicada nas costas, na altura dos ombros. "Para ser sentido no momento do abraço e a partir daí a gente iniciar um diálogo sobre inclusão e acessibilidade pelo abraço", revela Cíntia. Para ela, esse contato físico é apenas o início de uma conversa mais ampla: "Esse diálogo é faísca para diversas outras coisas".

As frases estampadas nas peças são autorais e refletem o repertório pessoal da criadora, agregando valor simbólico aos produtos.

Impacto na vida real: depoimentos de quem vivencia a acessibilidade

A proposta da marca ressoa profundamente entre clientes que enfrentam diariamente as barreiras da falta de acessibilidade. Renata Mara, que perdeu a visão ainda jovem, relata que nas grandes redes varejistas é difícil encontrar atendimento verdadeiramente útil. Sua experiência com as peças em braille foi marcante: "Ah, foi lindo! Foi incrível saber que isso existia". Para ela, a marca consegue unir praticidade e significado: "Todo o corpo é poesia".

Thereza Rosso, outra cliente que também perdeu a visão precocemente, reforça que a barreira muitas vezes não está na deficiência em si, mas na atitude das pessoas que enxergam. "Parece que as pessoas que enxergam é que não me enxergam", observa. Encontrar uma marca sensível às necessidades específicas de textura, organização e reconhecimento do consumidor tem um significado profundo: "Você existe. Tem alguém que te vê, te reconhece".

Estrutura familiar e projeção de crescimento sustentável

A produção das roupas é terceirizada, mas quem modela as peças é Maria Cristina, mãe de Cíntia, que expressa seu orgulho pelo trabalho da filha: "É um orgulho mesmo". O negócio, que recentemente migrou do regime de Microempreendedor Individual (MEI) para o Simples Nacional, alcançou um faturamento anual de R$ 97 mil e agora busca estabilidade para crescer de maneira sustentável.

Cíntia enfatiza que empreender é um exercício diário de coragem: "Empreender é um ato de coragem todos os dias para fazer com que as coisas deem certo". Curiosamente, o público da marca é bastante diversificado: aproximadamente 70% dos clientes são pessoas sem deficiência visual, enquanto 30% têm deficiência visual. A empresa também realiza adaptações de peças para atender a outros tipos de deficiência.

As vendas ocorrem através de múltiplos canais: loja física, participação em feiras e, principalmente, pelo comércio online. A empreendedora planeja expandir sua presença para o Rio de Janeiro e São Paulo, cidades com significativa população de pessoas com deficiência visual.

Propósito que vai além do lucro: educação e transformação social

Para Cíntia Caroline, mais importante do que o crescimento financeiro é o impacto social gerado pelo seu trabalho. "O propósito da marca realmente é levar a pauta da acessibilidade e inclusão para a vida", afirma. Entre seus projetos futuros está transformar a loja em um espaço educativo para o ensino de braille e formar uma equipe que inclua pessoas com deficiência visual.

Acompanhar as transformações positivas que seus produtos provocam na vida das pessoas compensa todos os desafios enfrentados no caminho empreendedor. A história dessa marca mineira demonstra como a inovação, aliada a um propósito genuíno, pode criar negócios que são, ao mesmo tempo, economicamente viáveis e socialmente transformadores.