De Campinas ao Bonete: a jornada de André que transformou dor em pousada Malu
Jornada de André: do luto à pousada Malu no Bonete

Uma mudança de vida: de Campinas ao coração do Bonete

Há quinze anos, André tomou uma decisão que mudaria seu destino para sempre. Ele deixou para trás a cidade de Campinas e a estabilidade do serviço público para dedicar-se aos cuidados do pai. Esse período foi marcado por luto e pelo fim de um relacionamento, abrindo espaço para uma fuga que se transformou em um novo caminho de vida.

O que começou como um simples fim de semana na ilha rapidamente se tornou uma existência inteira. "Fiquei e não voltei. A ilha faz isso com a gente", reflete André. A ilha não pede licença: ela envolve, exige e molda aqueles que a escolhem. Durante anos, André se reinventou profissionalmente, passando por áreas como imobiliária, serviços diversos e outros trabalhos. Cada experiência representava um pedaço de chão sólido para um sonho que sempre o acompanhou: ter um bar, administrar uma pousada e criar um espaço genuíno de encontro.

O nascimento do Okeanos: sonho e resistência

Em 2016, André decidiu arriscar tudo no Ardhentia Shopping. Com economias limitadas, mas uma coragem imensa, ele alugou um espaço modesto "lá em cima". Não havia luxo, apenas vontade, madeira, tijolo e muito suor. "Abri sem um centavo no bolso e no dia 14 de dezembro de 2016, inauguramos", recorda.

Assim nasceu o Okeanos, um bar que surgiu como um ato de resistência. Com coquetéis bem feitos e um ambiente vibrante, o local rapidamente atraiu pessoas e lotava frequentemente. No entanto, o sucesso de público não se traduzia em estabilidade financeira, e uma bola de neve de dívidas começou a crescer. Foi então que a irmã de André entrou em cena, trazendo gestão, estratégia e o fôlego necessário para salvar o negócio.

Família como rede: a parceria que salvou o sonho

A irmã não apenas ajudou: ela foi fundamental para a sobrevivência do empreendimento. Mudou-se para a ilha, assumiu a administração e tirou o Okeanos do buraco financeiro. Com sua expertise, o bar deixou de ser apenas um sonho e se transformou em uma empresa sustentável. Essa base sólida permitiu que André ousasse ainda mais: abriu o Okeanos Bonete e, posteriormente, transformou uma pousada arrendada em algo maior, mais íntimo e profundamente simbólico.

A dor sem nome: a perda da filha Malu

A vida, porém, reservou a André um golpe devastador. A perda da filha Malu foi uma experiência além das palavras. "A perda da minha filha não é dor; não tem palavra. Parece pesadelo", desabafa. Não há metáfora que consiga capturar a magnitude dessa ausência, nem consolo que seja suficiente. André descreve a sensação como viver dentro de um pesadelo sem fim, onde cada manhã trazia o mesmo vazio profundo.

O luto não se resolve, não se explica. Mas André encontrou sustentação em duas fontes principais: a espiritualidade afro-brasileira e a disciplina do trabalho. "Se eu não tivesse minha espiritualidade, eu teria desmoronado", confessa. Ele havia parado de beber meses antes da tragédia e hoje compreende que foi uma preparação inconsciente para suportar o abismo que se abriu. A fé nos rituais, a força da comunidade e a entrega ao trabalho foram as âncoras que o impediram de cair completamente.

Bonete cura sem piedade: o abraço verdadeiro da comunidade

No Bonete, André não encontrou um consolo fácil ou artificial. Encontrou verdade. O povo local não o tratou com pena, nem o envolveu em carinhos superficiais. "Eles não ficaram me paparicando. Me abraçaram sendo gente", relata. Foi nesse abraço firme e genuíno que ele começou a se reconstruir. André pegou um quiosque, deu vida ao Okeanos Praia, arrendou a pousada Margarida e, com afeto e memória, transformou-a na pousada Malu.

Malu: memória viva e símbolo eterno

Dar o nome da filha à pousada foi um ato de amor puro. A borboleta escolhida como logotipo serve como metáfora para uma vida breve, intensa e transformadora. "Ela foi uma borboleta, nasceu, transformou e foi", explica André. Cada quarto da pousada é único, e cada detalhe é carregado de afeto. A rusticidade é autêntica, mas combinada com conforto genuíno: toalhas macias, café da manhã caseiro e uma arquitetura que respeita a beleza natural do lugar.

A pousada Malu não é apenas um negócio. É um altar de memória, a forma que André encontrou para manter viva a presença da filha – não como uma ausência, mas como um símbolo de transformação e resiliência.

Estética e propósito: autenticidade com aconchego

No Bonete, existem pousadas excessivamente rústicas e outras que vendem uma imagem sem oferecer conforto real. A Malu escolheu um caminho diferente: o equilíbrio.

  • Rusticidade verdadeira, sem maquiagem ou artificialidade
  • Conforto real, sem ostentação ou exageros
  • Parcerias sólidas com barqueiros locais, fortalecendo a comunidade
  • Eventos íntimos, como luaus, pré-casamentos e celebrações especiais

A pousada é uma extensão da natureza, mas também funciona como um abrigo acolhedor. É uma experiência completa, construída sobre pilares de verdade e autenticidade.

As lições que a vida ensinou

A história de André é um testemunho poderoso sobre transformar tragédia em criação, dor em beleza e perda em memória viva. "Meu remédio para a dor foi trabalhar. O trabalho virou anestesia", compartilha. Trabalho funcionou como anestesia, a fé atuou como âncora, a família serviu como rede de apoio e a comunidade ofereceu o chão firme para reconstruir a vida.

A pousada Malu transcende a ideia de hospedagem convencional. Ela se tornou um ritual, uma memória tangível, um abraço coletivo. É a história de uma filha que se transformou em símbolo, de um pai que converteu dor em legado e de uma comunidade que acolhe sem máscaras ou falsidades. Na Praia do Bonete, cada hóspede é convidado a sentir além do superficial, a vivenciar uma experiência inteira que combina autenticidade com aconchego, natureza com afeto e simplicidade com verdade profunda.