Desenrola 2.0: governo lança novo pacote para renegociação de dívidas
Desenrola 2.0: novo pacote para renegociação de dívidas

O governo federal lançou nesta segunda-feira o Novo Desenrola Brasil, um pacote de renegociação de dívidas para famílias de baixa renda. A iniciativa ocorre em um momento em que o endividamento das famílias brasileiras atinge níveis recordes. Dados do Banco Central indicam que quase 30% da renda mensal dos lares está comprometida com dívidas, o maior patamar da série histórica. Na terça-feira, a Serasa Experian informou que 82,8 milhões de brasileiros estavam endividados em março, o equivalente a 49% da população.

Como funciona o Novo Desenrola Brasil

Podem aderir ao programa pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, ou seja, R$ 8.105. O objetivo é facilitar a regularização da situação financeira dos consumidores, com possibilidade de reduzir o valor devido e recuperar o acesso ao crédito. A medida tem duração de 90 dias e é voltada para dívidas em atraso. No fim de 2024, mais de 73 milhões de brasileiros estavam com o nome negativado, segundo o Banco Central. As dívidas com bancos e cartões de crédito concentram 27,4% desse total. Em março deste ano, esse número chegou a 82,8 milhões de pessoas, conforme a Serasa.

O cenário de endividamento no Brasil

O avanço do endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro das preocupações da economia e já mobiliza bancos, varejistas e o governo. Em fevereiro, o indicador atingiu 49,9% da renda, o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2005. Além disso, o número de pessoas com dificuldades mais graves para pagar dívidas também cresceu. Em dezembro, cerca de 16% dos brasileiros com crédito ativo estavam com atrasos superiores a 90 dias. Entre 2020 e 2024, esse grupo aumentou em 6 milhões de pessoas, chegando a 18,9 milhões, um avanço de 47% no período.

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Crédito e consumo nas periferias

Por trás desses números, há uma mudança na forma como milhões de brasileiros passaram a consumir e a se endividar. O crédito ampliou o acesso a bens nas últimas duas décadas, mas também alterou a lógica de compra: cada vez mais, primeiro se consome, depois se paga. O geógrafo e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos realizou uma pesquisa em campo por mais de uma década em bairros periféricos de São Paulo, como Brasilândia, Jardim Helena e Jardim Ângela. Ele observou que o crédito passou a organizar o cotidiano de consumo nas periferias.

Em um desses bairros, no Jardim Helena, na Zona Leste, ele se deparou com uma cena que sintetiza essa mudança: uma televisão gigante domina a sala de uma costureira, que disse: “Foi caro. Mas isso nem importa tanto, porque eu comprei parcelado. Tudo aqui nesta casa foi comprado parcelado.” Essa história deu origem ao livro “Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia”, lançado em abril pela Editora Fósforo.

O impacto do crédito na vida das famílias

Segundo Santos, a principal mudança nas periferias não foi apenas o aumento do consumo, mas a forma como ele passou a acontecer e a velocidade com que os produtos entram e saem das casas. Antes, a aquisição de bens duráveis dependia de poupança; agora, com a expansão do crédito, a lógica foi invertida. “O crédito ampliou o consumo, mas isso não necessariamente reduziu a pobreza. A gente está diante de uma questão de fundo: se estamos diante de uma nova pobreza urbana ou não”, afirma o pesquisador.

Na prática, as famílias passaram a consumir mais e mais rápido, mesmo sem um aumento proporcional da renda. Ao mesmo tempo, as condições estruturais dos bairros pouco mudaram. “O contraste é muito visível e muito brasileiro: uma TV de última geração dentro de casa e, do lado de fora, ruas sem asfalto, sem saneamento básico”, destaca Santos.

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Endividamento e racismo

Para o pesquisador, essa dinâmica não pode ser entendida sem considerar o fator racial. As periferias de São Paulo, onde a expansão do crédito foi mais intensa, são territórios majoritariamente negros e historicamente marcados por desigualdades estruturais. Segundo o Mapa da Desigualdade, o Jardim Ângela, no extremo da Zona Sul de São Paulo, tem o maior percentual de negros da cidade: 60,1%. A taxa é 10,3 vezes maior do que a de Moema, região nobre da Zona Sul, que concentra apenas 5,8% de pretos ou pardos. “Endividamento, crédito e racismo estão interligados. Você amplia o acesso ao consumo, mas não resolve as desigualdades estruturais, e isso faz com que a dívida pese mais sobre a população negra”, diz Santos.

Histórias reais de endividamento

A diarista Silvana Chagas Bernardo Severino, de 56 anos, moradora do Itaim Paulista, na Zona Leste de São Paulo, vive essa realidade. Separada do marido em 2024, ela diz que as contas ficaram mais difíceis de organizar. Sem cartão de crédito próprio, passou a usar o de familiares. “Eu uso o cartão da minha filha. Às vezes uso de outra pessoa também. Aí vira aquele bolo, né? Eu pago de uma, pago de outra e é nisso que eu me embolo”, conta. Com renda instável, que varia conforme os dias de trabalho, ela ganha cerca de R$ 2.500 em meses mais cheios, mas muitas vezes recebe menos. O orçamento precisa dar conta do aluguel de R$ 750, além de contas básicas como água e luz.

O papel do crédito consignado

Nesta semana, o governo federal anunciou novas regras para o crédito consignado privado, com a previsão de punições a instituições que cobrarem juros considerados abusivos, uma tentativa de frear o custo das dívidas para trabalhadores. Hoje, o cartão de crédito é um dos principais motores do superendividamento no país, com juros elevados e grande impacto no orçamento das famílias.

Estar endividado, neste contexto, não significa necessariamente estar com contas atrasadas, mas viver com parte da renda comprometida por parcelas e crédito. O que, em cenários de renda instável, pode levar à inadimplência, segundo o pesquisador. Além do recorde no comprometimento da renda, o endividamento total das famílias brasileiras já se aproxima de metade dos ganhos anuais, segundo o Banco Central. Levantamentos mostram ainda que dois em cada três brasileiros têm dívidas, muitas vezes acumuladas entre bancos, cartões e até familiares. Para equilibrar as contas, estratégias como cortar lazer, reduzir gastos e priorizar pagamentos tornaram-se comuns entre as famílias.