CEO da MEC3 defende ação sem esperar cenário ideal para o sucesso
CEO da MEC3 defende ação sem esperar cenário ideal

O CEO da MEC3 do Brasil, Elpidio Dell Aversana, defende que não se deve esperar pelo cenário ideal para tomar decisões importantes ou buscar objetivos. Em entrevista, o executivo italiano compartilhou sua trajetória de superação, marcada por disciplina, ética e coragem emocional.

Infância simples e valores éticos

Nascido em 1977 em Pádua, norte da Itália, Elpidio cresceu em uma família de classe média. Filho de Basilio, militar da Aeronáutica, e Nadia, funcionária dos correios, teve uma infância simples ao lado da irmã Myriam. Os avós maternos, Francesco e Dorina, foram fundamentais para transmitir valores como responsabilidade, disciplina e a importância de conquistar tudo sem depender de ninguém. Os recursos financeiros eram limitados: ele chegou a ter no máximo dois pares de sapatos, adquirindo um novo apenas quando o anterior não servia mais. Essa realidade de consumo restrito contribuiu para desenvolver disciplina e senso de responsabilidade.

Início da vida profissional

Aos 14 anos, começou a trabalhar como operário na empresa Tudertechnica durante períodos sazonais. Nos recessos escolares, que na Itália duram até três meses, ele trabalhava para financiar suas próprias viagens pela Europa, conciliando esforço e recompensa desde cedo. Formou-se em Direito pela Universidade de Ferrara em 2003, não para seguir carreira jurídica, mas para desenvolver pensamento estruturado. Para ele, o Direito é uma ferramenta para analisar problemas de forma lógica, desmontar, compreender, reconstruir e solucionar desafios, seja nos tribunais ou no ambiente corporativo.

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Desafios pessoais e mudança de país

Aos 27 anos, tornou-se pai antes de conquistar estabilidade financeira, o que exigiu amadurecimento rápido. Sem recursos ou experiência, precisou se adaptar e gerar resultados. Trabalhou no escritório Di Franco e Associados, mas percebeu que não era sua vocação. Atuou como gerente de exportação na East West Style Group, empresa têxtil, onde aprendeu inglês, espanhol e português em pouco tempo. A decisão de deixar a Itália veio quando sua esposa manifestou desejo de retornar ao Brasil. O filho, Edoardo, então com 9 anos, foi descoberto por uma agência e iniciou carreira como ator mirim na novela Passione, da Rede Globo, em 2010. Em setembro de 2012, Elpidio foi contratado pela Icoper, empresa italiana, e transferido para o Brasil para estruturar a operação local. Em 2014, a empresa passou por mudanças estruturais, e o ciclo foi encerrado, deixando-o desempregado em momento delicado.

Carreira na MEC3

Em 2017, assumiu a posição de gerente para a América Latina na MEC3, empresa italiana com mais de 40 anos, faturamento de cerca de 260 milhões de euros, dedicada a ingredientes para gelateria e confeitaria. A operação na região era pequena, com 12 colaboradores. Hoje, abrange toda a América Latina e Estados Unidos, com mais de 130 colaboradores no Brasil e faturamento de quase 200 milhões de reais, partindo de menos de 10 milhões. Para ele, nenhuma trajetória é isolada, e seu maior senso de realização está no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de equipes.

Saúde mental e autoconhecimento

A mudança de país foi um dos maiores desafios. Sem rede de contatos, precisou reconstruir sua trajetória, e a resiliência foi indispensável. Em 2015, enfrentou crises de pânico e optou por não recorrer a medicamentos, buscando compreender o processo. Com o tempo, reconheceu a importância da terapia. Após encontros com a terapeuta Luisa Rehder, recebeu retorno positivo sobre sua capacidade de elaborar experiências, fortalecendo sua confiança no autoconhecimento. Hoje, demonstra maior estabilidade emocional e lida com adversidades com serenidade. Para ele, buscar apoio profissional é um gesto de coragem.

Comportamentos que comprometem o sucesso

Elpidio identifica três comportamentos que comprometem o sucesso: medo de errar, acomodação e arrogância. O erro faz parte do crescimento; a acomodação impede o avanço; a arrogância bloqueia o aprendizado. Defende que líderes estejam abertos ao questionamento e valoriza profissionais que tragam contrapontos, evitando equipes de "homens do sim".

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Liderança e motivação

Para ele, o sucesso está ligado à autonomia e à liberdade de pensar e fazer escolhas. Valoriza trabalhar com pessoas curiosas, independentemente de títulos, pois a curiosidade gera inovação. Considera essenciais inteligência emocional e capacidade de trabalho em equipe. Dois fatores são determinantes: relações saudáveis e ética como princípio inegociável. A motivação é individual; cada pessoa precisa desenvolver automotivação. Na gestão, prioriza ambiente de confiança e busca oferecer salários acima da média, acreditando que esse investimento retorna em resultados.

Rotina disciplinada e equilíbrio

Aos 48 anos, mantém rotina disciplinada com limites claros: após as 20h, desconecta-se para preservar o equilíbrio pessoal, incentivando a equipe a fazer o mesmo. Defensor da leitura, observa que muitos substituíram livros por redes sociais, onde a profundidade dá lugar à superficialidade. Entre suas leituras está "Meditações", obra estoica sobre autocontrole e liderança ética. Mantém um círculo restrito de confiança com perfis diversos para buscar visões complementares, mas reconhece que a responsabilidade final é individual.

Reputação e valores

Elpidio considera a reputação um ativo construído ao longo do tempo com ética e consistência. Não teve um único mentor; aprendeu observando diferentes lideranças. Prioriza relações humanas de qualidade, baseadas em respeito e confiança, e defende equilíbrio entre afeto e firmeza. Para ele, os pais devem transmitir valores e preparar os filhos para lidar com frustrações, pois quando tudo é oferecido sem esforço, perde-se a noção de valor.

Conselho final

Para quem busca direção, ele aconselha: não espere pelo cenário ideal, pois ele não existe. A vida se constrói a partir do momento em que se assume responsabilidade pelas próprias escolhas. Pai de um jovem de 20 anos, estudante de Medicina, reconhece que o cenário atual é mais complexo, com pressões distintas. Chama a atenção para o fenômeno dos "nem-nem", jovens que não estudam nem trabalham, e acredita que parte desse comportamento está ligada à forma como são educados.