Banco Central busca dados para iniciar corte da Selic em março, afirma Galípolo
BC busca dados para corte da Selic em março, diz Galípolo

Banco Central busca dados para iniciar corte da Selic em março, afirma Galípolo

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira (11) que a autoridade monetária está em busca de dados adicionais que reforcem a confiança necessária para iniciar um ciclo de redução na taxa básica de juros, a Selic, a partir de março. Atualmente, os juros brasileiros encontram-se em 15% ao ano, patamar que vem sendo mantido pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

Calibragem e cautela na política monetária

"O Banco Central está mais para um transatlântico do que para um jet ski. Ele não pode fazer grandes movimentos e mudanças", disse Galípolo, ao participar do CEO Conference Brasil, evento promovido pelo BTG Pactual. Segundo o presidente do BC, a palavra-chave do momento é "calibragem", indicando que a instituição seguirá dependente dos dados e não pretende oferecer sinalizações adicionais sobre os próximos passos além do que já foi comunicado.

Galípolo negou que o uso recente dos termos "serenidade" e "parcimônia" representaria alteração na estratégia da instituição. "Não há nenhuma mudança de função de reação", afirmou categoricamente. "Sobre o resto do ano, qualquer sinalização corre o risco de ser frustrada e causar mais dano do que ajudar", disse ele, referindo-se ao cenário incerto de geopolítica, mudanças na política econômica dos Estados Unidos e as eleições brasileiras.

Mercado de trabalho e produtividade como desafios

O presidente do Banco Central destacou que a resiliência do mercado de trabalho segue um ponto de atenção, com desemprego em níveis historicamente baixos, e que os salários crescem acima da inflação e da produtividade - fator que, segundo ele, pressiona a dinâmica de preços. Galípolo defendeu que o país avance na agenda de produtividade para permitir crescimento mais sustentável e juros mais baixos no longo prazo.

"A melhoria de bem-estar está calcada em ganhos de produtividade", afirmou o economista. Ao tratar do regime de metas de inflação, disse que o patamar brasileiro está alinhado ao de outros países e elogiou declarações recentes do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em defesa da meta. Para Galípolo, o debate central deveria ser outro: por que o Brasil precisa manter juros estruturalmente mais elevados que seus pares e, ainda assim, enfrenta dificuldade para convergir a inflação.

Volatilidade cambial e cenário internacional

Sobre a volatilidade recente do câmbio, Galípolo disse que o BC já atuou de formas opostas em momentos distintos: sem intervir em um fim de ano e promovendo, no seguinte, a maior intervenção cambial da história recente. "A diferença foi a realidade", explicou. Para ele, o Brasil se beneficiou recentemente de uma reavaliação global de riscos, com investidores diversificando posições fora dos Estados Unidos.

Ainda assim, ponderou que não está claro se esse movimento é estrutural. Segundo a avaliação dele, a agenda econômica do governo americano tenta resolver um dilema complexo: manter o dólar como moeda de reserva internacional sem sustentar déficits elevados em conta-corrente. Para o Brasil aproveitar o momento, disse, é preciso avançar em reformas que aumentem a atratividade ao investimento privado. "As vantagens competitivas estão colocadas. Depende de nós", concluiu.

Foco em estabilidade e supervisão financeira

Questionado sobre episódios recentes no sistema financeiro, incluindo a liquidação do Banco Master, Galípolo afirmou que o BC discute aperfeiçoamentos regulatórios, como mudanças nas regras do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), limites de alavancagem e maior atenção ao descasamento entre ativos e passivos. Ele agradeceu publicamente o apoio da Polícia Federal nas investigações e disse que o aprimoramento da supervisão é contínuo.

"É um trabalho de polícia e ladrão. Você fecha uma porta, tentam abrir outra", comparou. Para os próximos anos, indicou que a agenda do BC estará centrada na "estabilidade", tanto monetária quanto financeira. "Avançamos muito em competição e inclusão. Agora, a ênfase será estabilidade", afirmou.

Vagas na diretoria e independência institucional

Sobre as duas vagas abertas na diretoria do BC, Galípolo limitou-se a dizer que a indicação é prerrogativa do presidente da República e defendeu que a política monetária dependa cada vez menos de nomes e mais do arcabouço institucional. "Eu sonho com o dia em que ninguém saiba quem é o presidente do Banco Central", disse, enfatizando a importância da independência e da continuidade das políticas monetárias independentemente de mudanças na equipe diretora.