Presidente da B3 projeta retomada de IPOs em 2026, mas alerta para riscos eleitorais e fiscais
B3 prevê retomada de IPOs em 2026 com 'vento bom' de capital estrangeiro

Presidente da B3 projeta retomada de IPOs em 2026, mas alerta para riscos eleitorais e fiscais

O mercado de capitais brasileiro pode experimentar uma retomada das ofertas públicas iniciais (IPOs) ainda em 2026, após um período prolongado de seca que se estende desde 2021. A avaliação otimista foi compartilhada por Gilson Finkelsztain, presidente da B3, em encontro com jornalistas nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026.

Vento favorável vindo do exterior

Finkelsztain utilizou uma metáfora climática para descrever o cenário atual: “Tem um vento bom chegando. É um vento vindo de fora, não de dentro”. Segundo ele, o fluxo de capitais estrangeiros representa a principal força motriz para a reabertura da janela de IPOs. O executivo acredita que, se o Brasil conseguir capturar uma parcela dos investimentos globais, os recursos podem ter um impacto transformador no mercado local.

O último IPO realizado na bolsa brasileira foi o da produtora de fertilizantes Vittia, em setembro de 2021. Esse evento marcou o encerramento do ciclo intenso de 2020-2021, quando mais de 70 empresas estrearam na B3. Desde então, nenhuma companhia nacional abriu capital no mercado doméstico, configurando o maior intervalo sem novas ofertas desde o período entre 1995 e 1998.

Setores promissores e empresas preparadas

O presidente da B3 antecipa que os primeiros IPOs devem surgir de empresas do setor de infraestrutura, com destaque para os segmentos de saneamento básico e logística. Ele enfatizou que mais de 50 empresas já possuem registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e estão tecnicamente preparadas para ingressar no mercado.

“Nunca foi um problema de oferta. Essas empresas trabalharam nos últimos anos, trabalharam governança. É um tema de demanda. Se tiver demanda, elas vêm a mercado”, explicou Finkelsztain. Ele projetou que o ciclo de retomada começará com companhias mais maduras, que apresentam operações bilionárias e perspectivas de investimento claramente definidas.

Incertezas fiscais e eleitorais como obstáculos

Apesar do otimismo, o executivo fez ressalvas importantes. O ano de 2026 é eleitoral, e persistem incertezas significativas em relação à situação fiscal do país. Para Finkelsztain, a perspectiva de juros mais baixos no Brasil dependerá das definições de candidatos e propostas econômicas que emergirão nos próximos meses.

“Principalmente se chegarmos ao fim do ano com um candidato compromissado com o ajuste fiscal, para que saiba chegar a juros de um dígito em 2027”, ponderou. O ciclo de alta da taxa Selic, que saiu de 2% ao ano durante a pandemia para os atuais 15%, tem sido um dos fatores que desaceleraram as aberturas de capital.

Ausência do investidor brasileiro e preferência pelo mercado local

Outro ponto destacado pelo presidente da B3 foi a reduzida participação do investidor brasileiro no mercado de renda variável. Enquanto os brasileiros chegaram a alocar cerca de 15% de seus recursos em ações, atualmente esse percentual oscila entre 5% e 6%, considerando previdência, fundos institucionais e pessoas físicas.

“Quando e se esse movimento ocorrer, de queda de taxa de juros, maior interesse do investidor local por renda variável, esse movimento vai ser muito forte”, avaliou. Apesar de algumas empresas nacionais terem optado por listagens no exterior recentemente, Finkelsztain acredita que a maioria das futuras aberturas de capital ocorrerá no Brasil.

“O vento que hoje parece ser de listagem fora, eu acredito que vai se reverter. A maioria das empresas vão querer abrir o capital no Brasil”, concluiu o executivo, reforçando a confiança no potencial do mercado doméstico para atrair novas emissões.