A relação entre os Estados Unidos e a União Europeia passa por um momento de tensão crescente, com reflexos diretos na economia global. A escalada de ameaças, que inclui a imposição de tarifas extras pelo governo norte-americano e o pano de fundo da questão da Groenlândia, tem aumentado a imprevisibilidade e elevado o chamado prêmio de risco nos mercados.
Setores em risco: do supérfluo ao essencial
Em um ambiente de incerteza geopolítica, os setores mais sensíveis são os primeiros a sentir o impacto. O economista Ricardo Rodil, da Crowe Macro, explica que os segmentos de bens duráveis e consumo discricionário tendem a ser os mais prejudicados. Isso inclui itens como casas, automóveis e produtos considerados não essenciais.
A razão é comportamental: quando a confiança do consumidor cai, ele naturalmente segura os gastos, priorizando o básico. Por outro lado, os bens essenciais, com demanda mais inelástica, sofrem menos. "Arroz e feijão continuam no carrinho", ilustra o especialista, destacando a resiliência desses setores mesmo em cenários turbulentos.
O baque nas big techs e a busca por autonomia
No recorte específico do mercado financeiro, Ricardo Rodil chama a atenção para o setor de tecnologia. As empresas de tecnologia costumam sentir o impacto de forma imediata, um movimento já observado com a queda das big techs americanas nas bolsas europeias.
Esse fenômeno está ligado a uma expectativa do mercado: com a postura mais agressiva de Washington, cresce a probabilidade de a Europa acelerar sua busca por autonomia tecnológica. Isso pode significar uma redução na dependência de bases e serviços americanos, reconfigurando cadeias de valor e afetando o valuation dessas gigantes.
Migração para a proteção: ouro e renda fixa em alta
Diante do cenário de maior risco, os investidores têm buscado portos mais seguros para seus recursos. O economista observa uma clara migração para ativos de proteção. O ouro, tradicional valor-refúgio, ganha atratividade em momentos como este.
No Brasil, a renda fixa também se fortalece, aproveitando o cenário de Selic em patamar elevado. No entanto, Rodil faz um alerta importante: a renda fixa não é isenta de riscos. Os títulos carregam o risco de crédito dos emissores, que podem ser empresas ou o próprio governo.
Ainda assim, na comparação direta com a renda variável, ele avalia que a renda fixa tende a ser uma opção mais segura do que a escolha de ações "empresa a empresa" em um período de alta volatilidade e pouca visibilidade. A análise foi destacada no Radar Econômico e publicada originalmente em 19 de janeiro de 2026.