Mercosul e UE assinam maior acordo de livre comércio do mundo após 25 anos
Mercosul e UE assinam maior acordo comercial global

Neste sábado, 17 de janeiro de 2026, um capítulo histórico é escrito nas relações internacionais. Após 25 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia (UE) assinaram em Assunção, no Paraguai, o que se tornará a maior área de livre comércio do mundo. O acordo, celebrado em meio a tensões globais e protestos de agricultores europeus, promete remodelar os fluxos comerciais entre os dois blocos.

Uma cerimônia marcada por simbolismo e ausências

A assinatura ocorreu em uma cerimônia na capital paraguaia, com a presença dos presidentes de três dos quatro países do Mercosul. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi representado pelo chanceler Mauro Vieira. Pela Europa, estiveram presentes a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Na véspera, Lula e Von der Leyen já haviam se reunido no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, para discutir os detalhes finais. Lula definiu a parceria como um sinal crucial contra o "ambiente internacional cada vez mais protecionista e unilateral". Já Von der Leyen enxerga no tratado a consolidação da Europa como um "parceiro confiável", capaz de traçar seu próprio rumo e diversificar seu comércio, em uma clara referência às recentes tensões com os Estados Unidos.

Os números de um gigante econômico e a resistência no Parlamento Europeu

Quando entrar em vigor, a nova zona de livre comércio integrará um mercado de aproximadamente 720 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22,4 trilhões. A Comissão Europeia estima que o acordo pode aumentar as exportações anuais do bloco para o Mercosul em até 39%, o equivalente a cerca de 49 bilhões de euros, sustentando mais de 440 mil empregos em solo europeu.

Contudo, o caminho ainda não está totalmente livre. O texto precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde a pressão do setor agrícola é intensa. Países como França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda votaram contra a aprovação pelos Estados-membros. A França, em particular, lidera a oposição, temendo que seus agricultores sejam prejudicados pela entrada de produtos como carne, açúcar e soja dos países do Mercosul, especialmente do Brasil.

"A raiva dos agricultores é profunda e suas demandas são legítimas", afirmou a ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, lembrando que a aprovação inicial não é o fim da história. Ao longo da semana, grandes protestos com tratores tomaram cidades europeias, com destaque para Paris.

As garantias que convenceram a Itália e os próximos passos

O aval da Itália foi fundamental para se alcançar a maioria qualificada necessária. A primeira-ministra Giorgia Meloni só aceitou o acordo após um robusto pacote de garantias de Bruxelas, que inclui:

  • A possibilidade de suspender isenções tarifárias se houver um aumento superior a 5% nas importações de produtos agropecuários do Mercosul.
  • Um fundo de compensação de 6,3 bilhões de euros.
  • Controles fitossanitários reforçados.
  • O compromisso de não aumentar os preços dos fertilizantes.
  • A proteção de mais de 340 produtos alimentares tradicionais europeus com indicação geográfica.

Após a assinatura, começam os trâmites internos de ratificação. No Brasil, o acordo precisa ser aprovado pelo Congresso Nacional. Na UE, cabe ao Parlamento Europeu. Existe a possibilidade de vigência bilateral, permitindo que partes do acordo entrem em vigor entre a UE e qualquer país do Mercosul que já tenha concluído sua ratificação.

Mais do que comércio: democracia e sustentabilidade

Líderes de ambos os blocos enfatizaram que o tratado vai além da dimensão econômica. Em artigo publicado em jornais de 26 países, o presidente Lula afirmou que o pacto "promove a associação entre duas regiões que compartilham valores e interesses comuns, como a defesa da democracia e do multilateralismo".

O acordo também incorpora capítulos ambiciosos sobre cooperação política e desenvolvimento sustentável, alinhando o comércio à promoção de direitos trabalhistas e à defesa do meio ambiente. A UE se comprometeu com um pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação dessas cláusulas.

Para o Brasil, o acordo tem valor estratégico múltiplo. A UE é seu segundo maior parceiro comercial, com um fluxo de bens que atingiu cerca de US$ 100 bilhões em 2025. A expectativa é que o tratado não apenas diversifique as parcerias brasileiras, mas também impulsione a modernização da indústria nacional através da integração com cadeias produtivas europeias.

Como resumiu Ursula von der Leyen: "Sejam bem-vindos ao maior mercado e à maior área de livre comércio do mundo... É assim que a gente cria a prosperidade verdadeira". Uma prosperidade que, após um quarto de século de espera, agora depende da aprovação final dos parlamentos.