O gigantesco cofre subterrâneo que guarda o ouro do mundo
A 25 metros abaixo da Liberty Street, em Nova York, encontra-se uma das instalações mais seguras e valiosas do planeta. No subsolo da sede do Federal Reserve dos Estados Unidos, mais de meio milhão de barras de ouro, pertencentes a bancos centrais, governos e instituições internacionais, são protegidas por um cilindro de aço de 90 toneladas. Uma vez fechado, esse cofre colossal só pode ser reaberto no dia seguinte, garantindo segurança máxima ao tesouro que abriga.
Um tesouro avaliado em trilhões de dólares
Conhecido como o Cofre de Ouro do Fed, este é o maior depósito do metal precioso do mundo, contendo aproximadamente 6,3 mil toneladas. O valor total, aos preços atuais, ultrapassa a marca de US$ 1 trilhão, o que equivale a cerca de 4% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos. Este cofre desempenha um papel absolutamente crítico para a estabilidade do sistema financeiro global, servindo como o local onde muitas nações mantêm suas reservas de ouro – o ativo de proteção por excelência, utilizado para respaldar moedas nacionais e enfrentar contingências em cenários de crise econômica ou geopolítica.
O ouro sempre foi considerado um porto seguro em momentos de turbulência financeira, volatilidade geopolítica e perdas causadas pela inflação. Por essa razão, o metal representa uma parte significativa das reservas dos bancos centrais em todo o globo, com especial destaque para os países europeus. "É um dos ativos mais importantes porque, diante de eventos adversos, permite atuar como emprestador de última instância e intervir nos mercados cambiais", explicou Barry Eichengreen, especialista em sistema monetário internacional da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Por que o ouro europeu está nos Estados Unidos?
Durante décadas, os Estados Unidos e seu banco central foram vistos como os guardiões mais confiáveis deste ativo essencial. Especialmente após a Segunda Guerra Mundial, muitas nações europeias, sentindo-se ameaçadas pelo poder da União Soviética, começaram a acumular grandes quantidades de ouro no cofre americano. O sistema de Bretton Woods, estabelecido em 1944, criou um regime de câmbio fixo com o dólar atrelado ao ouro, tornando ambos os ativos extremamente confiáveis.
Para as potências europeias enfraquecidas pelo conflito, era vantajoso acumular ouro e dólares sem custo sob a custódia do Federal Reserve. "Transportar ouro em navios ou aviões e contratar seguros custa caro. Armazená-lo no Fed, que não cobra pela custódia, parecia uma excelente ideia", detalhou Eichengreen. Assim, a partir da década de 1950, ouro europeu começou a fluir para Nova York, onde permaneceu como símbolo de segurança durante a Guerra Fria.
A onda de preocupação com a volta de Trump ao poder
Contudo, o cenário geopolítico mudou radicalmente. A União Soviética não existe mais, e o retorno de Donald Trump à Casa Branca tem alterado a sintonia de décadas entre Washington e seus aliados europeus. O distanciamento do presidente em relação a compromissos internacionais e suas divergências sobre tarifas comerciais, a Groenlândia e conflitos como o com o Irã geraram uma preocupação crescente sobre a segurança do ouro europeu guardado pelo Fed.
Na Alemanha, que possui as segundas maiores reservas de ouro do mundo – atrás apenas dos EUA – e mantém cerca de 1,2 mil toneladas em Nova York, vozes influentes têm soado o alarme. O economista Emanuel Mönch, ex-pesquisador-chefe do Bundesbank, defendeu a repatriação, argumentando que "dada a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados Unidos". Michael Jäger, presidente da Associação Alemã de Contribuintes, foi mais direto: "Trump é imprevisível. Nosso ouro já não está seguro no cofre do Fed".
Essa preocupação também ecoou entre deputados da CDU, o partido do chanceler Friedrich Merz, e outras forças políticas. Embora o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, tenha tentado dissipar os temores, afirmando ter "total confiança" nos colegas americanos, do outro lado do Atlântico nem o Federal Reserve nem o governo Trump reafirmaram publicamente essa confiança. O silêncio da instituição ocorre em um momento de tensão com o Executivo, que chegou a abrir investigação criminal contra o presidente do Fed, Jerome Powell.
Precedentes históricos de repatriação
A Alemanha não está sozinha. Itália e Suíça são frequentemente citadas entre os países com grandes reservas em Nova York, e alguns já iniciaram processos de repatriação no passado. A Holanda, por exemplo, reduziu de 51% para 31% a parcela de suas reservas depositadas no Fed a partir de 2014. A própria Alemanha repatriou parte de suas barras naquele período, durante a crise da dívida grega.
Um precedente histórico marcante ocorreu na década de 1960, quando o presidente francês Charles de Gaulle decidiu trazer de volta as barras de ouro do país, temendo uma desvalorização do dólar. O tempo lhe deu razão: em 1971, o presidente Richard Nixon pôs fim à conversibilidade do dólar em ouro, desmantelando o sistema de Bretton Woods. A França, com suas reservas já em solo nacional, saiu em posição vantajosa.
Os custos e riscos de uma repatriação em massa
Apesar das preocupações, a ideia de manter o ouro europeu no Fed ainda tem defensores. Clemens Fuest, do Instituto IFO de Pesquisa Econômica da Alemanha, alertou que repatriar o ouro "apenas colocaria mais lenha na fogueira" da situação atual. Especialistas ressaltam que a independência do Federal Reserve em relação ao governo Trump impede medidas unilaterais sobre o metal, além de destacarem os enormes custos, desafios logísticos e riscos de segurança envolvidos no transporte de uma carga tão valiosa.
O volume de reservas internacionais de ouro no cofre de Nova York já apresenta queda contínua desde 1973, quando ultrapassou 12 mil toneladas. No entanto, a custódia do ouro representa mais do que um serviço financeiro; é um bem global que os EUA ofereceram gratuitamente, assim como a proteção da Otan ou o dólar como moeda global, em troca de construir relações de amistosas e parcerias comerciais.
Barry Eichengreen reflete: "Este governo não acredita que os Estados Unidos devam prestar serviços gratuitamente. Tudo o que alimenta dúvidas entre aliados sobre a segurança de seus depósitos corrói a boa vontade, algo essencial quando você precisa de apoio, por exemplo, em um conflito no Oriente Médio". Até agora, nenhum país europeu decidiu repatriar seu ouro durante o segundo mandato de Trump, mas as palavras da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, ecoam: "Na história do sistema monetário internacional, há momentos em que os alicerces que pareciam inabaláveis começam a tremer".



