Itaú revisa cenário macroeconômico e projeta Selic em queda para 12,25% em 2026
No último dia de fevereiro, em meio a um cenário econômico marcado por dados inflacionários e resultados fiscais, o departamento de estudos macroeconômicos do Itaú-BBA divulgou sua atualização mensal, trazendo ajustes significativos nas projeções para a taxa Selic e o câmbio. A principal novidade foi uma redução sensível na previsão da taxa básica de juros, que deve cair para 12,25% ao ano em dezembro de 2026, contra uma estimativa anterior de 12,75%. Para 2027, a projeção também foi revisada, passando de 11,75% para 11,25%.
Inflação e câmbio como fatores-chave para a revisão
O banco justificou a mudança com base em uma revisão nas expectativas de inflação para 2026 e 2027, que caíram de 4,0% para 3,8% e de 4,0% para 3,9%, respectivamente. Esse movimento é atribuído principalmente à apreciação do real frente ao dólar, que tem exercido um efeito desinflacionário sobre itens comercializáveis, como alimentos e bens industriais. O Itaú detalhará na próxima semana as expectativas de baixa da Selic em cada reunião do Copom, com uma redução inicial de 0,50% prevista para 18 de março.
O Banco Central tem reiterado que a magnitude e a duração do ciclo de flexibilização monetária serão definidas ao longo do tempo, enfatizando que o momento atual ainda é de calibragem da política monetária. Isso é compatível com um ciclo de redução de juros mais contido, conforme destacado pelo Itaú. Apesar do avanço recente na desinflação, esse movimento segue concentrado em itens beneficiados pela valorização cambial, enquanto o mercado de trabalho permanece apertado e os reajustes salariais continuam acima da inflação e da produtividade, mantendo pressão relevante sobre as medidas de inflação subjacente.
Cenário cambial revisado e desafios eleitorais
O Itaú também ajustou sua projeção para a taxa de câmbio, agora esperando o dólar a R$ 5,40 em 2026 e R$ 5,60 em 2027, ante R$ 5,50 e R$ 5,70 anteriormente. O cenário externo de maior apetite por ativos de risco tem beneficiado a moeda brasileira, mas o aumento esperado no prêmio de risco típico de períodos eleitorais ainda limita uma apreciação mais significativa. Um ciclo de baixa de juros significativamente mais amplo exigiria um câmbio estruturalmente mais valorizado, um cenário menos trivial considerando a volatilidade inerente a anos eleitorais, alertou o banco.
No mercado internacional, o salto de 0,5% nos preços por atacado em janeiro nos Estados Unidos elevou a inflação em 12 meses para 2,9%, o que pode evitar uma redução dos juros americanos neste semestre. Para o Itaú, um câmbio mais apreciado e seus efeitos desinflacionários sobre os itens comercializáveis são fatores cruciais. Ainda assim, o banco mantém a avaliação de um ciclo de flexibilização contido, uma vez que a desinflação permanece concentrada em itens comercializáveis e porque o mercado de trabalho segue resiliente, o que mantém riscos de pressões inflacionárias.
Perspectivas para o PIB, emprego e contas públicas
Em relação ao crescimento econômico, o Itaú manteve sua estimativa para o PIB em 2025 em 2,3% e não alterou as projeções para 2026 e 2027, em 1,9% e 1,7%, respectivamente. Para 2026, o banco segue com viés de alta, diante da possibilidade de adoção de medidas contracíclicas adicionais e de um desempenho potencialmente mais robusto do crédito, impulsionado por estímulos habituais em anos eleitorais.
Para o mercado de trabalho, o Itaú não alterou as estimativas para a taxa de desemprego, mantendo-as em 5,7% em 2026 e 6,0% em 2027. Nas contas públicas, o banco manteve a projeção de déficit primário de 0,8% do PIB em 2026 e 0,9% em 2027. Além do desafio estimado de 0,3% do PIB para cumprimento da meta neste ano, o Itaú antevê a necessidade de ajustes estruturais, primordialmente na trajetória de despesas a partir de 2027, para viabilizar a estabilização da dívida pública e criar bases para um crescimento sustentável com juros reais reduzidos.
Hoje, o dólar fechou cotado a R$ 5,1340, com baixa diária de 0,06% e de 0,83% na semana, refletindo o cenário de apreciação discutido pelo banco. Essas revisões ocorrem em um contexto em que o IBGE divulgou um IPCA-15 alto de 0,84%, com impactos significativos de transportes e educação, e o Banco Central reportou um superavit consolidado de R$ 103,7 bilhões nas contas públicas pelo conceito primário.
