Famílias brasileiras recorrem a créditos emergenciais em meio a pico histórico de endividamento
As famílias brasileiras estão recorrendo ao uso de créditos emergenciais, como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, para quitar dívidas, em um cenário de pico histórico de endividamento atingido em janeiro deste ano. Enquanto o crédito de longo prazo, que abrange modalidades como consignado, não consignado e financiamento de veículos, cresceu cerca de 12,5%, as modalidades emergenciais saltaram impressionantes 23% em fevereiro de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados do Termômetro do Crédito, realizado pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC) com base em informações do Banco Central.
Endividamento atinge níveis alarmantes e preocupa especialistas
O nível de endividamento total das famílias chegou aos 49,7%, e o comprometimento da renda mensal atingiu aproximadamente 29,3%, segundo dados divulgados pelo Banco Central. Everton Gonçalves, diretor de economia, regulação e produtos da ABBC, explica que as famílias já estão endividadas e a oferta de crédito barato também foi reduzida, o que produz um movimento de crescimento em linhas de maior risco. Gonçalves alerta que, com o alto volume de endividamento, pode haver uma desaceleração mais rápida da economia do que o planejado, embora o mercado ainda mantenha níveis recordes de emprego, crescimento e salários.
Créditos emergenciais apresentam taxas de juros elevadas e alto risco
As linhas emergenciais são as de maior risco e custo mais elevado do mercado. Por exemplo, a taxa de juros do cartão de crédito rotativo atingiu o patamar de 435,9% ao ano, conforme divulgado pelo Banco Central. Desde janeiro de 2024, está em vigor uma norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original, limitando a taxa de juros a um teto de 100% do valor da dívida contraída. Atualmente, a taxa de juros básica (Selic) da economia está em 14,75% ao ano.
Inadimplência e impacto nas pequenas e médias empresas
Segundo o levantamento da ABBC, o cartão de crédito rotativo é a modalidade que mais gerou inadimplência para a pessoa física, com 59,7%, seguido pelo cheque especial, com 14,4%. Especialistas recomendam o uso do rotativo apenas em casos emergenciais, sendo acionado quando o cliente não paga o valor integral da fatura na data de vencimento. Além disso, as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) sofrem um impacto mais profundo do que as grandes corporações nesse cenário de crédito restrito, com uma taxa de inadimplência de 5,9% contra 0,6% das grandes empresas.
Medidas governamentais e perspectivas futuras
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva planeja autorizar um saque extraordinário do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar dívidas das famílias, com estudos para liberar 20% dos valores para quem ganha até cinco salários mínimos (R$ 8.105). Para as MPMEs, a principal ajuda tem vindo de modalidades de recursos direcionados, como programas vinculados ao BNDES, FGI e PEAC-FGI, que oferecem taxas de juros mais acessíveis e focam no financiamento de médio e longo prazo. Everton Gonçalves destaca que as pequenas e médias empresas são mais sensíveis aos movimentos da economia, enfrentando dificuldades para captar recursos no mercado de capitais e juros altos nos bancos.



