O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu publicamente uma mudança significativa na regulação do mercado financeiro. Ele afirmou que a competência de fiscalização do Banco Central precisa ser ampliada para abranger os fundos de investimento, setor atualmente sob a responsabilidade da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O argumento central é baseado no volume de recursos: os valores sob vigilância direta do BC são quatro vezes superiores aos da esfera da CVM.
Os números que justificam a proposta
Dados consolidados de novembro pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) dão suporte à tese do ministro. O patrimônio total dos fundos de investimento no Brasil atingia a marca de R$ 10,633 trilhões, distribuídos entre 104 instituições financeiras que já são fiscalizadas pelo Banco Central.
A composição desse montante revela a predominância de instrumentos típicos da alçada do BC. Os papéis de renda fixa, em grande parte títulos públicos federais, representavam R$ 4.373,4 bilhões, ou 41,13% do total. Somando-se a esse valor os fundos multimercados (R$ 1.578,8 bilhões) e os fundos de previdência (R$ 1.695,8 bilhões), chega-se a mais de 80% do patrimônio. Em contraste, as ações, que falam mais diretamente à CVM, somavam R$ 660,2 bilhões, apenas 6,2% do total.
Quem administra os maiores patrimônios?
O levantamento da Anbima também mapeou os principais gestores do mercado. O BB Asset Management aparecia isoladamente com R$ 1.788,3 bilhões. No entanto, considerando as controladas, o Itaú assumia a liderança com R$ 1.823,1 bilhões (somando Itaú e Intrag). O BTG Pactual ocupava o segundo lugar isolado, com R$ 1.137,1 bilhões, enquanto o Bradesco, com sua controlada DEM DTVM, totalizava R$ 1.348,7 bilhões, ficando em terceiro.
Carteiras que chamam a atenção
O relatório destacou a composição atípica de algumas carteiras, levantando questões sobre risco e liquidez. A Reag, envolvida na "operação Carbono Oculto", ocupava a 11ª posição em novembro, com R$ 532,9 bilhões. Sua carteira era considerada estranha: apenas R$ 428 milhões em renda fixa (de alta liquidez) e uma dominância de Fundos de Investimento em Participação (FIP), com R$ 145,1 bilhões. Os fundos da Reag foram posteriormente vendidos e a distribuidora CBSF foi liquidada pelo BC em 15 de janeiro de 2026 por insuficiência de liquidez.
Outro caso que se destacava era o da BRL DTVM, em 7º lugar com R$ 600 bilhões. Sua carteira era extremamente concentrada em ativos de baixa liquidez: R$ 518,3 bilhões (86,38%) estavam em FIPs, com apenas R$ 3,4 milhões em renda fixa. A distribuidora foi fundada pelo empresário catarinense Maurício Ribeiro, conhecido por grandes empreendimentos imobiliários no litoral de Santa Catarina.
Em comparação, o BTG Pactual, citado como exemplo de diversificação, mantinha uma carteira mais equilibrada, com valores expressivos em renda fixa (R$ 279,9 bi), ações (R$ 189,2 bi), fundos multimercados (R$ 286 bi) e FIPs (R$ 154,6 bi).
A defesa de Haddad, portanto, se apoia não apenas na disparidade de volumes, mas também na percepção de que a natureza dos ativos e os riscos sistêmicos presentes em grande parte dos fundos de investimento estão mais alinhados com a expertise e o escopo de atuação tradicional do Banco Central.