O recado mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) veio sem grandes surpresas na forma, mas com um peso maior no conteúdo: a inflação preocupa — e não só no curto prazo. O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, em entrevista ao programa Mercado, da VEJA+ TV, chama atenção para uma mudança sutil, mas importante. Segundo ele, a autoridade monetária passou a olhar com mais cautela para efeitos prolongados de choques externos, como petróleo e tensões geopolíticas.
Expectativas de inflação elevadas
“As expectativas de inflação estão começando a ficar mais elevadas do que a meta perseguida, não só para 2027, mas também para 2028. Você começa a ter um processo mais longo de desancoragem da inflação, que é altamente preocupante para o Banco Central”, afirma Vale. Na prática, isso empurra a queda dos juros para um caminho “muito lento, muito demorado”.
El Niño como novo foco de pressão
Esse cenário ganha uma camada extra de incerteza com o clima. Vale alerta que, depois do impacto recente dos combustíveis, o próximo foco de pressão pode vir dos alimentos, impulsionado pelo El Niño. “O Banco Central vai ter que entrar também no segundo semestre com a percepção de inflação de alimentos, porque para o ano que vem está vindo El Niño”, diz. O histórico preocupa: “Em geral, toda vez que ele acontece, você tem uma pressão grande e importante de alimentos no ano seguinte”. É o que ele define como um possível “choque duplo” — energia agora, comida depois.
Credibilidade do Banco Central em jogo
Diante desse quadro, a cautela do Copom não é casual. A economista Natalie Verndl, delegada do Corecon-SP, reforça que a instituição precisa preservar sua credibilidade, especialmente após um IPCA recente mais pressionado. Para ela, manter uma política monetária ainda contracionista é quase uma obrigação em um ambiente de tantas variáveis fora de controle. O mercado agora aguarda os próximos passos, com a expectativa de que os juros permaneçam elevados por mais tempo do que o inicialmente previsto.



