Ex-garçom filho de diarista toma posse como diplomata do Itamaraty
Filho de diarista e pedreiro vira diplomata do Itamaraty

Douglas Rocha Almeida, um jovem de 31 anos nascido em Brasília e criado em Luziânia (GO), realizou um sonho que parecia distante. Nesta terça-feira (20), ele tomou posse como diplomata do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Itamaraty. Sua trajetória, marcada por muito esforço, começa longe dos salões da diplomacia: ele é filho de uma diarista e de um pedreiro, e trabalhou como garçom e monitor de festas para ajudar em casa.

Da infância em Luziânia ao encontro com o presidente Lula

Douglas nasceu no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), na Asa Sul, mas foi no bairro Parque Industrial Mingone, em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, que construiu suas primeiras memórias. A casa foi erguida pelas mãos do próprio pai. A rotina era puxada e começava cedo, com o cheiro do alho sendo refogado pela mãe, Francisca Aparecida Rocha, conhecida como Cida, antes de ela sair para mais um dia de trabalho como diarista.

A conquista do cargo foi tão significativa que, na última quarta-feira (14), Douglas e a mãe foram recebidos em audiência pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto. Um momento simbólico para uma família que batalhou muito.

Para Douglas, sua aprovação é o resultado de uma combinação poderosa: educação, políticas públicas e uma dedicação extrema. Ele nunca permitiu pausas em sua jornada, estudando até mesmo durante os turnos como garçom. "Eu anotava o pedido do cliente, mas do lado eu já tinha anotado a revisão de coisas para faculdade", revelou.

A maratona de estudos e a promessa à mãe

O caminho até a diplomacia foi uma verdadeira prova de resistência. Aos 15 anos, Douglas enfrentava cerca de 160 km de deslocamento diário (ida e volta) para estudar no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, no Plano Piloto. Essa rotina se estendeu pela faculdade, quando conseguiu uma bolsa na Universidade Católica de Brasília (UCB).

"Acordava às 5h, pegava ônibus às 6h, fazia aula de manhã, curso de idiomas à tarde e faculdade à noite. Chegava em casa meia-noite. Dormia quatro horas por noite", descreve. A decisão de focar no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) ganhou força após a perda de sua irmã, Tainá, fazendo-o buscar um propósito maior.

Quando começou a estudar sistematicamente para o concurso do Instituto Rio Branco, em 2021, a rotina ficou ainda mais intensa. Conciliando os estudos com o trabalho de garçom, ele chegou a dormir apenas 12 horas em uma semana inteira durante os períodos mais críticos.

No centro de sua motivação sempre esteve uma promessa feita à mãe, que trabalha como diarista desde os 13 anos. "Prometi para ela que, quando eu passasse nesse concurso, ela não precisaria mais trabalhar como diarista", conta Douglas. Cida confirma que sentia o desejo do filho. "Teve dias que eu chegava chorando de dor. Quando ele me via, parava de estudar e vinha me abraçar. Eu sentia no meu coração que ele pensava: 'Vou tirar minha mãe dessa’", emociona-se. Agora, o novo diplomata planeja montar um espaço de lazer para que a mãe possa alugar e ter uma nova fonte de renda.

Políticas públicas como alicerce e o sonho de um Itamaraty plural

Douglas é um defensor fervoroso da educação e das políticas públicas, que identifica como fundamentais em seu percurso. Ele teve bolsa integral no ensino superior pelo ProUni, cursou licenciatura em letras-espanhol na Universidade de Brasília (UnB) e estudou idiomas no Centro Interescolar de Línguas (CIL).

Em 2022, foi contemplado com uma bolsa do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco, no valor de R$ 30 mil, destinada a candidatos negros com bom desempenho não aprovados. Ele também relembra que a família contou com programas sociais. "As políticas públicas foram muito importantes para a nossa formação, mas também para a nossa subsistência", afirma, citando o Bolsa Família na infância e o Auxílio Emergencial durante a pandemia.

O concurso que o levou à carreira teve 8.861 inscritos para apenas 50 vagas, uma média de aproximadamente 177 candidatos por vaga. Douglas conquistou a 47ª posição no ranking geral e ficou em terceiro lugar entre os candidatos negros dentro das cotas, com sua nomeação oficial publicada em dezembro.

Para o futuro, ele sonha em ser um diplomata reconhecido na formulação da política externa brasileira e acredita que sua origem será um diferencial. "Acredito que por ter trabalhado com o público por muito tempo, isso pode acentuar a sensibilidade para atuar com pessoas em situação de vulnerabilidade no exterior", pondera.

Mais do que isso, Douglas carrega a bandeira da representatividade. "É importante que a gente tenha um Itamaraty mais plural, com mais mulheres, mais pessoas com deficiência, mais negros, para uma maior representatividade da população brasileira", defende o novo diplomata, que transformou sua história de vida em um exemplo de que, com continuidade e apoio, é possível alcançar os objetivos mais altos.