Uma cruz fincada em homenagem a um homem negro escravizado, possivelmente vítima de homicídio, marca a origem da Paróquia Nossa Senhora das Estrelas, em Itapetininga (SP), que completa, nesta sexta-feira (1º), 60 anos de elevação. Embora a história seja reconhecida pela Igreja Católica e por historiadores, ainda há poucas informações sobre como a cruz foi parar na Rua Virgílio de Rezende, no Centro da cidade.
Segundo o padre Júlio Ferreira de Campos, pároco da igreja há 10 anos, a estimativa é de que o símbolo tenha sido instalado por volta de 1890, após o assassinato. "Essa cruz foi colocada pela morte de um negro, assim conta-se a história. Nós não temos o nome do negro, não temos quem exatamente cravou a cruz, só temos esse início, esse início sem nomes, mas que foi configurando a fé. A beleza legítima de fato histórico é que nós temos uma peregrinação para esse cruzeiro", explica.
Origem da Cruz do Negro
A cruz de madeira maciça passou a ser chamada de Cruz do Negro. Conforme o pároco, fiéis costumavam acender velas aos pés do objeto, fazendo pedidos e relatando graças alcançadas. À distância, pela localização do cruzeiro, as chamas das velas pareciam um céu estrelado, o que deu origem ao nome Capela das Estrelas. "Hoje a igreja ocupa o quarteirão todo, mas, antes disso, era uma capela, bem menor, bem simples, mas no exato local onde foi colocada a cruz, que deu origem à fé, à devoção das pessoas de ir até aquele cruzeiro para rezar. De modo especial, eram as pessoas negras e, depois, veio se formando o restante da população de Itapetininga", relata.
O primeiro registro de uma capela construída no local, onde antes havia apenas a cruz, data de cerca de 1905. O espaço foi ampliado na década de 1930, no mesmo ponto. Registros indicam que a inauguração da nova igreja ocorreu em 8 de setembro de 1936, com uma grande celebração que contou com música, leilão e fogos. A obra teve apoio de moradores, que contribuíram com doações para viabilizar a construção. "Se construiu uma igrejinha modesta, depois uma posterior, que é mais organizada, e essa construção que nós temos agora é uma terceira igreja, que daí já se construiu com a instalação da paróquia. A instalação da paróquia foi porque houve a necessidade. A igreja era bem pequenininha, uma capelinha, e daí se construiu essa outra", explica o padre.
Sincretismo religioso
A história de criação da igreja chamou a atenção do historiador José Luiz Ayres Holtz, conhecido na cidade como Grilo, que escreveu o livro "Da Cruz do Negro ao Brilho das Estrelas". Ao longo das pesquisas para a obra, Grilo afirma ter identificado que a chegada de novos moradores à região da paróquia influenciou diretamente o desenvolvimento da comunidade. "Um templo que apresentava sincretismo religioso de fundo africano e católico, passou por um processo de 'branqueamento' pela presença de novos moradores na região, especialmente imigrantes italianos. Também levantei informações sobre o processo de transformação oficial do templo em uma capela católica, entre outros, e toda a etapa de criação da Paróquia de Nossa Senhora das Estrelas", comenta.
O pesquisador também não conseguiu esclarecer as circunstâncias da morte do escravizado, nem identificar a vítima ou quem teria colocado a cruz no local. "O escravo negro era um fugitivo de alguma fazenda de algum lugar. Sem nome e sem origem. Surgiu de depoimentos de pessoas mais antigas, ex-escravos, que acompanharam de perto todo esse evento, como o caso da ex-escrava Tia Joaquina, que relatou tudo o que sabia sobre o acontecimento para o pesquisador Antonio Francisco Gaspar, na década de 1920. Descendentes de escravos, com um processo de valorização dos negros, mantiveram a história desse episódio através dos seus filhos e netos", aponta.
O terceiro templo
Quase 30 anos após a primeira ampliação do templo, a Comunidade Nossa Senhora das Estrelas, até então pertencente à Catedral Nossa Senhora dos Prazeres, foi elevada a paróquia em 1º de maio de 1966. Na época, a igreja tinha como seu primeiro pároco o cônego João Blóes Neto. O padre Júlio conta que o cônego foi o responsável por idealizar o templo que existe atualmente, com design considerado moderno para a época. Em 9 de setembro de 1973, celebrou-se a última missa na antiga capela, demolida em seguida. Já em 9 de julho de 1982, foi dedicado o novo templo da Paróquia Nossa Senhora das Estrelas.
"Ela não tinha uma finalidade exclusiva para a igreja, porque o cônego João Blóes Neto tinha muita índole artística, gostava muito de música, então tinha apresentações dentro da igreja. Por isso a arquitetura desse jeito moderno. Depois, com o passar do tempo, se observou que a igreja estava descaracterizada no sentido religioso. E, no senso de fé das pessoas, a gente foi adornando ela, trazendo de volta alguns objetos que foram doados, como imagens e assim por diante, e hoje configurou aquilo que temos aqui", relembra.
O papel do cônego João não se restringiu ao projeto de ampliação. O líder religioso também atuou no processo de elevação da paróquia e no fortalecimento da relação entre a comunidade e a igreja. "Um homem muito inteligente, muito visionário. Viu a necessidade de elevar a capela ao estado de paróquia e, em contato com o bispo da época, fez o pedido. Quando eleva ao estado de paróquia, há toda uma jurisdição própria, onde se torna a Matriz Nossa Senhora das Estrelas." O padre Bloes Neto morreu em 1984. Em sua homenagem, uma praça na Avenida Virgilio de Rezende recebeu o nome de Praça João Bloes Neto.
Nossa Senhora das Estrelas
A imagem de Nossa Senhora das Estrelas foi doada à igreja pela moradora Floriza Piedade Alves. A representação é associada à Nossa Senhora da Guia ou à Nossa Senhora Auxiliadora, com manto azul escuro adornado por estrelas. "As relações de Nossa Senhora com as estrelas são muitas no evangelho e outros escritos canônicos, como em Apocalipse, capítulo 12, versículo 1, que cita 'uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de 12 estrelas'", comenta o autor do livro.
No entanto, a denominação da igreja aconteceu por parte do povo itapetiningano, explica o padre. "A igreja, na verdade, foi construída como Igreja das Estrelas. Não tinha ainda uma correlação com Nossa Senhora, só que toda igreja, povo, na sua devoção de fé, no senso comum, atribui um patrono, um padroeiro de origem e de forma muito devota à Virgem Maria. Então, colocaram Nossa Senhora das Estrelas. Essa devoção, de modo específico, é muito bonita, porque ela nasceu de forma originária aqui na nossa cidade."
O que aconteceu com a cruz
A madeira vertical da cruz foi queimada por vândalos, mas o restante do objeto permanece original. Segundo o padre Júlio, a cruz permaneceu junto à Capela das Estrelas até por volta de 1970, quando foi transferida para a Comunidade Rural da Rocinha. Mas retornou à Matriz em 2006, para as festividades dos 40 anos da paróquia, e permanece no local até hoje. "A coisa mais bonita que eu vejo é a questão da cruz e como se desenvolveu essa devoção a partir disso. Uma cruz que alguém foi ali e cravou, associada à figura de Maria, espontaneamente. A devoção que brotou aqui, das pessoas de Itapetininga, não veio de fora, como costuma acontecer. Ela foi como que um casamento: Igreja das Estrelas e, depois, Igreja Nossa Senhora das Estrelas. Isso é muito bonito", aponta o padre.
"A cruz em geral tem uma devoção em todas as igrejas, lembrando a morte de Cristo. No caso da Cruz do Negro, foi gradativamente perdendo sua importância. Mas ficou como um sinal de um crime contra um escravo, envolvido em folclore e um fato histórico", analisa o historiador.
Obras sociais
Erguida a partir de um episódio marcado pela violência do período da escravidão, a igreja mantém, até hoje, ações voltadas a grupos socialmente vulneráveis. Segundo o padre Júlio, a comunidade busca resgatar essa origem para preservar o simbolismo e a memória do local. "A parte principal é a conscientização de todos em relação à origem da igreja e da fé. Dentro da nossa comunidade paroquial, temos o projeto Estrela Solidária, voltado especialmente às pessoas em situação de vulnerabilidade. Ajudamos com cestas básicas, construção de casas, doação de medicamentos e o que for possível."
"Na catequese, também temos um olhar atento às crianças com necessidades especiais, como o autismo. Procuramos acolher e incentivar as famílias, porque todos têm o direito de pertencer a uma comunidade", afirma.
A Igreja Matriz Nossa Senhora das Estrelas está localizada na Praça Cônego João Blóes Neto e segue como referência histórica, cultural e religiosa em Itapetininga. Neste domingo (3), será realizada a missa em celebração aos 60 anos de elevação da paróquia, a partir das 19h30.



