A capital paraibana, João Pessoa, vive uma transformação acelerada nos últimos anos. O que antes era conhecido por praias tranquilas e baixo custo de vida agora vê disparada nos preços de imóveis e serviços, impulsionada pelo aumento populacional e pela chegada de novos moradores, especialmente jovens e profissionais remotos.
Aumento no custo de vida e nos imóveis
A publicitária Rebeca Cirino, de 39 anos, voltou a morar em João Pessoa em 2020, após 15 anos em São Paulo. Ela e o marido, o advogado Ezequiel Ribeiro, buscavam uma vida mais tranquila para a filha. No entanto, perceberam que o custo de vida subiu significativamente, principalmente nos últimos dois anos. "Em 2022, o coco era R$ 2. Agora já encontra por R$ 6 e até R$ 7", exemplifica Rebeca. Ezequiel também nota aumento em despesas básicas, como mercado e restaurantes.
O preço do metro quadrado praticamente dobrou em poucos anos: de R$ 4,5 mil em 2019 para R$ 8 mil em 2026, segundo o índice FipeZap. A valorização imobiliária foi a segunda maior entre as capitais brasileiras, com alta de 15,15% em 12 meses, atrás apenas de Salvador (16,25%). Bairros da orla, como Cabo Branco e Tambaú, registram valores ainda mais altos, chegando a R$ 12,3 mil o metro quadrado.
Crescimento populacional e trânsito
João Pessoa foi a quinta capital que mais ganhou habitantes no país, com taxa de crescimento de 1,19% ao ano, segundo o Censo do IBGE. Foram 110 mil novos moradores em 12 anos, totalizando 833.932 habitantes. Esse avanço populacional trouxe mudanças na rotina, como o aumento do trânsito. "Um trajeto de carro de cinco minutos pode levar meia hora no horário de pico", relata Rebeca. A frota de veículos passou de 474 mil em 2024 para mais de 501 mil em 2026.
Planejamento urbano e desigualdade
Para o geógrafo Alexandre Sabino do Nascimento, da UFPB, o crescimento da cidade não é desordenado, mas atende a interesses do mercado imobiliário. "Estão criando uma cidade para o mercado imobiliário", afirma. Ele aponta que mudanças no Plano Diretor reduziram a participação popular e que o déficit habitacional é de cerca de 50 mil domicílios. Muitas famílias comprometem mais de 30% da renda com aluguel.
Infraestrutura e saneamento
O avanço urbano também expõe fragilidades no saneamento. Apenas 72,36% do esgoto é tratado, segundo o Instituto Trata Brasil. O pesquisador Joácio Morais Júnior, da UFPB, alerta que o crescimento acelerado não foi acompanhado pela rede de esgoto, gerando riscos ambientais e econômicos. "A solução técnica para o saneamento é uma medida de sobrevivência biológica e econômica para a capital", afirma.
A Prefeitura de João Pessoa informou que tem investido em mobilidade, como o Complexo Viário Beira Rio, mas não respondeu sobre as críticas ao planejamento voltado ao mercado imobiliário. A Cagepa, responsável pelo saneamento, também não se manifestou.



