Acordo UE-Mercosul: Maçã brasileira enfrenta desafio europeu
Acordo UE-Mercosul: cautela na maçã, otimismo em frutas

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, celebrado em janeiro de 2026, gerou um sentimento de otimismo entre os produtores de frutas do Brasil, mas acendeu um sinal de alerta específico para um setor: o da maçã. Enquanto frutas tropicais podem se beneficiar amplamente, a maçã nacional enfrentará a concorrência direta de gigantes europeus como França e Polônia.

Otimismo geral com cautela setorial

O Brasil, que ocupa a posição de terceiro maior produtor mundial de frutas, vê na Europa seu principal destino de exportação, um mercado com cerca de 450 milhões de consumidores. A assinatura do tratado, portanto, é vista como uma grande oportunidade estrutural. No entanto, conforme destacou Valeska de Oliveira Ciré, da Associação Internacional de Produtos Frescos (IFPA), em entrevista ao programa Mercado, a preocupação está concentrada na maçã.

"A preocupação está principalmente na concorrência direta com a produção europeia", afirmou a representante. Diferente de itens como manga ou mamão, onde o Brasil tem vantagem climática, a maçã é produzida em larga escala e com alta eficiência por países do bloco europeu.

Os principais pontos de atenção para o setor

Os desafios para os produtores de maçã são múltiplos. Em primeiro lugar, há a questão da concorrência com grandes produtores estabelecidos. A Europa não é apenas um mercado consumidor, mas também um exportador robusto do produto.

Em segundo lugar, o acordo prevê a abertura recíproca dos mercados. Isso significa que, ao mesmo tempo em que o Brasil ganha acesso facilitado à UE, o mercado interno brasileiro, com seus 200 milhões de habitantes, se tornará um destino estratégico para os excedentes da produção europeia.

Outro fator crucial são as janelas de produção. A safra brasileira de maçã ocorre principalmente entre fevereiro e abril. Os produtores precisarão organizar logística e comercialização para garantir que o produto nacional chegue com qualidade e preço competitivo, mesmo com a possível entrada de variedades estrangeiras em outros períodos.

Prazos e ajustes necessários

O acordo estabelece cronogramas diferentes para a eliminação das tarifas. Para a maçã, a tarifa de 10% que incide sobre as exportações brasileiras para a Europa será eliminada gradualmente, em um prazo de até 10 anos. Este período de transição é visto como uma janela para ajustes.

Outras frutas terão benefícios mais imediatos. A uva, por exemplo, terá sua tarifa de 11% zerada assim que o acordo entrar em vigor. Limões e limas terão a taxa de 14% eliminada em até 7 anos.

É importante ressaltar que todas essas medidas dependem da aprovação final do Parlamento Europeu e dos parlamentos dos países do Mercosul para começarem a valer.

Competitividade como objetivo final

O principal ganho de longo prazo apontado por especialistas é o alinhamento da competitividade brasileira com a de outros países sul-americanos, como Peru e Colômbia, que já possuem acordos comerciais favoráveis com a UE. Para a maçã, no entanto, o caminho exigirá investimentos em eficiência, qualidade e logística.

O setor, portanto, encara o tratado com mais receio do que outros polos frutícolas. A necessidade de se modernizar e reduzir custos para competir em igualdade de condições com os europeus em seu próprio mercado e no mercado global se torna urgente. A próxima década será decisiva para definir se a maçã brasileira conseguirá transformar o desafio em uma real oportunidade de crescimento.