Acordo Mercosul-UE: O que muda para o agro brasileiro e consumidor?
Acordo Mercosul-UE: impactos no agronegócio brasileiro

A União Europeia aprovou e formalizou definitivamente o acordo de livre-comércio com o Mercosul, consolidando a criação do maior bloco comercial do planeta. A parceria abrange um mercado estimado em mais de 700 milhões de consumidores, colocando o agronegócio brasileiro em uma posição central nas negociações.

Oportunidades e limites para as exportações

Em entrevista ao Record News Rural na segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, o pesquisador Felippe Serigati, do FGV Agro, avaliou os desdobramentos do acordo. Ele classificou a medida como positiva, mas fez uma ressalva importante sobre o volume de negócios. Segundo Serigati, considerando o patamar já elevado das exportações do setor, o incremento direto pode não ser tão expressivo.

"Agora, produtos brasileiros conseguem acessar o mercado da União Europeia com maior facilidade ou, pelo menos, com menor dificuldade. No entanto, no final das contas desse processo de negociação, o volume adicional de produto brasileiro não é tão grande assim", afirmou o especialista.

Os números do agronegócio brasileiro são robustos. No ano passado, as exportações do setor totalizaram quase US$ 170 bilhões, o que equivale a aproximadamente R$ 912 bilhões na cotação atual. O superávit comercial gerado foi de cerca de US$ 150 bilhões, ou R$ 800 bilhões.

O "efeito de sinalização" da qualidade brasileira

Para Felippe Serigati, um dos benefícios mais estratégicos do acordo vai além da redução tarifária. Ele destaca o chamado "efeito de sinalização". Como o bloco europeu é reconhecido mundialmente por seus rigorosos controles de qualidade, especialmente para produtos alimentícios, a aprovação do acordo funciona como um selo de garantia para a produção nacional.

"Imagine um outro país que quisesse adquirir produtos do agro brasileiro. Naturalmente, eles vão questionar a qualidade. As entidades de classe, as empresas, o governo, todos vão dizer: 'não, o produto tem qualidade, fique tranquilo'. Mas você tem agora um reforço nessa argumentação. O produto tem tanta qualidade que consegue acessar um mercado bastante rigoroso, como é o mercado europeu", explicou o pesquisador.

Impacto no mercado interno e desafios por cadeia produtiva

O especialista também abordou uma preocupação comum: o possível encarecimento dos produtos para o consumidor brasileiro devido ao aumento das exportações. Serigati tranquiliza, afirmando que essa lógica não se aplica ao universo do agronegócio.

"O grande mercado consumidor dos produtos do agro brasileiro é o próprio Brasil. Então, aquela ideia de que, para você exportar, você gera escassez no mercado interno, definitivamente não vale para o nosso setor", analisou.

Ele ainda ressaltou que os efeitos do acordo serão sentidos de maneira distinta em cada cadeia produtiva. Enquanto alguns setores podem expandir vendas rapidamente, outros enfrentarão obstáculos. O principal desafio, segundo ele, continua sendo a superação das barreiras não tarifárias impostas pela Europa, que incluem exigências sanitárias, fitossanitárias e ambientais complexas.

A formalização deste acordo histórico marca um novo capítulo nas relações comerciais do Brasil, mas seu sucesso dependerá da capacidade do setor em atender a padrões internacionais exigentes e da contínua negociação para derrubar barreiras remanescentes.