As ruas de Paris foram tomadas nesta semana por centenas de tratores e agricultores franceses em protesto. O alvo é o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, cuja assinatura está prevista para este sábado, no Paraguai. O clima político na capital francesa segue tenso, com faixas e bloqueios reforçando a mensagem de descontentamento do setor agrícola local.
Protestos intensificam pressão às vésperas da assinatura
Os manifestantes se concentraram próximo à Assembleia Nacional, o parlamento francês, denunciando o que chamam de concorrência desleal que o pacto traria. Os agricultores argumentam que os padrões de produção mais flexíveis dos países do Mercosul, como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, colocariam em risco a agricultura europeia, que opera sob regras ambientais e sanitárias mais rígidas e, consequentemente, com custos mais elevados.
O protesto ocorre em um momento crucial: a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve representar o bloco europeu na cerimônia de assinatura em Assunção. Apesar da oposição pública do presidente francês, Emmanuel Macron, a maioria dos países da União Europeia apoia a conclusão do acordo, que é negociado há mais de um quarto de século.
Um acordo de 25 anos e seus desafios futuros
As negociações do acordo UE-Mercosul começaram em 1999, tornando-se uma das tratativas comerciais mais longas da história moderna. O texto final prevê a redução gradual de tarifas ao longo de 15 anos, visando criar uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, abrangendo um mercado potencial de cerca de 780 milhões de pessoas.
No entanto, a assinatura no Paraguai não significa o fim do processo. O acordo ainda enfrenta um caminho árduo de ratificação. O texto precisa ser submetido à votação dos 720 membros do Parlamento Europeu, onde já existe resistência organizada de grupos ambientalistas e de partidos políticos. Há ainda a promessa de judicialização no tribunal do bloco, o que pode adiar ou até inviabilizar a implementação prática do pacto.
O que está em jogo para o Mercosul?
Para os países do Mercosul, o acordo representa uma oportunidade histórica de aumentar as exportações de commodities agrícolas, produtos manufaturados e serviços para um mercado desenvolvido e de alto poder aquisitivo. A abertura do mercado europeu é vista como um motor para o crescimento econômico da região.
Contudo, a forte oposição dentro da Europa, exemplificada pelos protestos em Paris, mostra que os desafios são tanto econômicos quanto políticos. A tensão reflete um debate global mais amplo sobre os termos do comércio internacional, sustentabilidade e proteção dos mercados internos.
O desfecho desta longa novela comercial, portanto, ainda depende não apenas das assinaturas dos governantes, mas também da aprovação parlamentar e da opinião pública europeia, que se mostra dividida e vocal sobre o tema.