Conflito no Oriente Médio impacta diretamente os custos dos exportadores brasileiros
A guerra em curso no Oriente Médio está exercendo uma pressão significativa sobre os custos operacionais dos exportadores brasileiros, com reflexos imediatos no setor agrícola. Na fase final da colheita da soja, as máquinas agrícolas dependem de um óleo diesel que se tornou substancialmente mais caro devido às tensões geopolíticas.
Aumento nos preços do diesel e fertilizantes preocupa produtores
O produtor rural Ângelo Ximenes relata que o preço do diesel subiu cerca de 40% desde o fechamento do Estreito de Ormuz, um ponto crítico para o transporte marítimo global. "É muito preocupante tanto com a falta do produto, quanto também com a alta, que encarece todo o custo de produção", afirma Ximenes, destacando a dupla ameaça de escassez e inflação de custos.
Além da soja, Ângelo cultiva milho, um dos principais produtos agrícolas exportados pelo Brasil para o Oriente Médio. Mais da metade de toda a produção nacional de milho tem como destino essa região conflituosa. A alta nos preços de insumos agrícolas, especialmente fertilizantes, tem levado muitos produtores a reconsiderar seus planos para a próxima safra.
"O produtor está diminuindo a área plantada. Por quê? Porque os custos têm elevado. Qualquer guerra que acontece afeta diretamente na importação, na exportação", explica Ximenes, ilustrando como as incertezas internacionais forçam ajustes estratégicos na agricultura brasileira.Exportações brasileiras para o Oriente Médio e seus desafios logísticos
O Brasil mantém uma relação comercial robusta com o Oriente Médio, exportando não apenas milho, mas também frango, açúcar e carne bovina. Nas últimas duas décadas, essas exportações cresceram a uma taxa média impressionante de 49% ao ano. Somente em 2025, os negócios com a região ultrapassaram a marca de US$ 12 bilhões.
No entanto, a guerra introduziu obstáculos logísticos substanciais. Gilberto Poleto, diretor-presidente de uma empresa exportadora, descreve uma situação onde máquinas industriais, como uma capaz de produzir 10 mil salgadinhos por hora, permanecem paradas no estoque. Clientes do Oriente Médio já pagaram pelo equipamento, mas a empresa enfrenta dificuldades para enviar os produtos devido ao aumento nos custos de transporte.
"Nós recebemos um comunicado de uma dessas empresas de transporte internacional cobrando US$ 35 acima daquilo que já estava, que era US$ 5, US$ 6 por quilo, via aérea. A mercadoria fica parada, tem um custo de armazenagem que o importador e o exportador têm que sustentar", detalha Poleto, enfatizando os encargos extras que corroem a rentabilidade.
Estratégias para mitigar os impactos da instabilidade internacional
Para proteger os exportadores das flutuações causadas por tensões internacionais, especialistas defendem a adoção de medidas proativas. Roberto Dumas, professor de Economia Internacional do Insper, sugere mecanismos de proteção cambial e contratos comerciais que antecipem possíveis crises.
"Proteção cambial, já contratar o câmbio para tantos anos ou para um ano, dois anos, o que quer que seja. Contrato comercial: colocar no contrato comercial já antecipar que podemos ter crises vindouras", recomenda Dumas, destacando a importância do planejamento financeiro e jurídico.Diante dos desafios, algumas empresas estão buscando diversificar seus mercados. Gilberto Poleto relata que sua empresa está explorando novas oportunidades na Oceania, Austrália e em vários países da Europa. "Estamos em alguns países da Europa, onde criamos demandas novas para produtos que podem ser feitos na nossa máquina. Então, isso aí tem gerado novos negócios", afirma, mostrando como a adversidade pode estimular a inovação e a expansão para mercados alternativos.
A guerra no Oriente Médio, portanto, não apenas eleva os custos diretos de produção e logística para os exportadores brasileiros, mas também força uma reavaliação estratégica de práticas comerciais e de gestão de riscos, com implicações de longo prazo para o agronegócio e a economia nacional.



