Controladoria de São Paulo investiga contratos milionários da SPTuris e demissão de secretário
A Controladoria Geral do Município de São Paulo (CGM) está investigando contratos que somam quase R$ 240 milhões firmados entre a SPTuris e a empresa MM Quarter Produções. O controlador-geral Daniel Falcão afirmou que a demissão do secretário-adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), foi motivada por uma forte desconfiança de "possível sociedade oculta" entre Marinho e a empresária Nathalia Carolina da Silva Souza, dona da MM Quarter.
Documentos revelam poderes amplos de ex-secretário
Documentos acessados pelo g1 e TV Globo mostram que Rodolfo Marinho, mesmo como secretário-adjunto, tinha poder para abrir contas, contratar e demitir funcionários, e gerir o dinheiro da MM Quarter, que possui contratos milionários com a SPTuris. Uma procuração registrada no 36° Cartório da Vila Maria concedia a Marinho amplos poderes de gestão da empresa, incluindo movimentações bancárias e assinatura de documentos.
Conforme apurado, Marinho e Nathalia foram sócios em uma empresa de consultoria política até poucos dias antes de ele assumir o cargo na Secretaria Municipal de Turismo em 2022. Poucos dias antes da nomeação, Nathalia abriu a MM Quarter como sócia única, e a empresa começou a ganhar contratos vultosos com a SPTuris durante a gestão de Marinho, totalizando ao menos 24 contratos que somam mais de R$ 239 milhões.
Investigação e demissões na prefeitura
O prefeito Ricardo Nunes determinou a investigação da CGM após reportagens do portal Metrópoles. Na semana passada, a controladoria descobriu a procuração que ligava Marinho à MM Quarter. Em resposta, Nunes anunciou a demissão de Rodolfo Marinho e do presidente da SPTuris, Gustavo Pires, que estava no cargo desde 2021. Pires foi substituído pelo subprefeito da Sé, Coronel Marcelo Salles.
Nunes declarou em vídeo nas redes sociais: "Nós não permitiremos no nosso governo nenhum tipo de ilegalidade ou irregularidade." Ele também afirmou que dois auditores fiscais da CGM atuam dentro da SPTuris para analisar todos os contratos e iniciar um processo de nova licitação para substituir a MM Quarter.
Possível sociedade oculta e envolvimento de terceiros
Segundo Daniel Falcão, a procuração descoberta pode indicar uma sociedade oculta entre Nathalia e Marinho atuando dentro da prefeitura. "É possível haver uma sociedade oculta porque, tanto o secretário-adjunto quanto a sócia, que aparece no quadro societário da Quarter, dava amplos poderes de contratar, demitir e fazer transações bancárias. Então, isso é um indício forte de que haja sócios ocultos [dentro da MM Quarter]", disse o controlador.
Nunes revelou ainda que a CGM identificou uma segunda procuração onde Nathalia concedia poderes similares a uma pessoa chamada Vitor, que também é sócio de uma empresa que presta serviços à Prefeitura de São Paulo. "A minha percepção é de que quem é dono mesmo desse negócio [MM Quarter] é o Rodolfo [Marinho] e esse Vitor", declarou o prefeito.
Histórico e mudanças na empresa
Registros da Junta Comercial de SP (Jucesp) mostram que a MM Quarter era originalmente uma empresa de manutenção e limpeza até 13 de abril de 2022, quando Nathalia assumiu como única sócia e mudou a atividade para organização de eventos. Em 20 de maio de 2023, a empresa passou de micro para empresa de pequeno porte (EPP).
O endereço registrado inicialmente era um terreno na Vila Sabrina, na periferia da Zona Norte, onde Nathalia afirmava morar. Após as denúncias, o endereço foi atualizado para um prédio comercial na Avenida Roque Petroni Júnior, na Zona Sul, embora a portaria informe que o local possui apenas salas comerciais, sem unidades habitacionais.
Reação da oposição e defesa da MM Quarter
Parlamentares da oposição, como o vereador Nabil Bonduki (PT) e a vereadora Luana Alves (PSOL), ingressaram com pedidos de investigação no Ministério Público de São Paulo e solicitaram uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os contratos. "Estamos falando de milhões em contratos públicos sob suspeita. Se há uso de empresa laranja, possível favorecimento e falhas graves de fiscalização, isso não é detalhe burocrático, é um indício de desvio da finalidade da máquina pública", afirmou Luana Alves.
A MM Quarter emitiu uma nota negando as acusações, afirmando que "as insinuações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos" e que não há sócios ocultos. A empresa destacou que o contrato ativo para o Carnaval de São Paulo, de R$ 9,4 milhões, é por demanda, com valor efetivamente utilizado de R$ 2.987.443,57.
Próximos passos da investigação
A Controladoria Geral do Município continua a investigar os contratos e as relações envolvidas. O prefeito Ricardo Nunes reforçou o compromisso com a transparência e a legalidade, enquanto a oposição pressiona por apurações mais profundas. O caso segue em análise pelo Ministério Público, que confirmou o recebimento das notícias de fato.



