Reservatórios da Grande SP melhoram, mas gestão noturna de água segue por 10 horas
Reservatórios da Grande SP melhoram, mas gestão noturna segue

Reservatórios da Grande SP apresentam leve melhora, mas situação ainda preocupa

A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), órgão da gestão do governador Tarcísio de Freitas, decidiu manter a Gestão de Demanda Noturna (GDN) em 10 horas diárias, das 19h às 5h, como medida preventiva para preservar os níveis dos reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo. A decisão foi tomada na segunda-feira (9) pelo Conselho Diretor da agência, com base em avaliação técnica das condições hidrológicas do sistema.

Sistema Cantareira continua com desempenho abaixo do esperado

Embora o Sistema Integrado Metropolitano (SIM) esteja atualmente com aproximadamente 52% de armazenamento, o Sistema Cantareira — responsável por cerca de 50% do abastecimento da Grande São Paulo — apresenta apenas 39% da capacidade e teve recuperação abaixo do esperado durante o período de chuvas. Em fevereiro de 2026, o manancial registrava 35,8% do volume útil, entre os níveis mais baixos da série histórica para o mês.

Apesar da subida para 39% em março, o volume ainda está bem distante do esperado para esta época do ano, quando tradicionalmente os reservatórios deveriam estar em níveis mais elevados. A aproximação da estiagem, fase em que historicamente se intensifica a pressão sobre os sistemas de abastecimento, motivou a manutenção das medidas restritivas.

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Medida preventiva mantida além do recomendado

Atualmente, o Sistema Integrado Metropolitano apresenta reservação de 50,75%, o que, de acordo com a metodologia de acompanhamento do cenário hídrico adotada pelo Governo do Estado, enquadra-se na Faixa de Atuação 2. Nesta faixa, a Gestão de Demanda Noturna seria aplicada por até oito horas, mas como medida preventiva, a Arsesp e a Agência SP Águas optaram por mantê-la em 10 horas.

"A decisão considera o percentual de recuperação dos reservatórios e a aproximação da estiagem. Nesse contexto, a manutenção das medidas de gestão da demanda busca preservar os níveis dos reservatórios e reforçar a segurança hídrica da região", explicou a Arsesp em nota.

Impactos da redução de pressão noturna

A redução da pressão noturna, iniciada em agosto do ano passado, já economizou mais de 105 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer a Capital, Guarulhos, São Bernardo e Mauá por aproximadamente 30 dias. No entanto, a medida tem impactado diretamente a população, especialmente em bairros mais altos onde a água não chega durante o período de baixa pressão.

No bairro do Capão Redondo, na Zona Sul da capital, a falta de água virou assunto recorrente entre os moradores. "A gente não tem outro papo a não ser da água que falta no bairro", relatou Cíntia Salvador do Monte, cuidadora residente na região.

Análise técnica aponta cenário preocupante

Segundo a pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Adriana Cuartas, mesmo com chuvas acima da média em algumas regiões, a recuperação dos reservatórios não foi significativa. "Só fevereiro que teve chuvas acima da média, 22% acima da média só, e nós não sabemos o que que vai acontecer em março. Ainda assim, por exemplo, o Cantareira não vai chegar nem a 50%", alertou a especialista.

O Sistema Cantareira, que abastece cerca de 9 milhões de moradores da Grande São Paulo, acumulou apenas 75 bilhões de litros de água entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, volume muito abaixo da média da última década. Este é o terceiro pior período de chuvas dos últimos dez anos no principal reservatório da região.

Estratégias para garantir o abastecimento

Para o hidrólogo Carlos Tucci, é preciso ampliar as estratégias para garantir o abastecimento de água na região metropolitana. Entre as alternativas, ele cita:

  • Busca por novas fontes de água
  • Investimentos em reuso
  • Redução de perdas na rede de distribuição

Atualmente, o Brasil perde entre 35% e 40% da água tratada antes que ela chegue ao consumidor. "Se você reduzir essas perdas, aumenta a disponibilidade", explicou Tucci.

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Investimentos e prejuízos

Enquanto soluções estruturais não avançam, comerciantes enfrentam prejuízos diretos. A cabeleireira Luana Ezequiel Lemos afirma que precisa suspender o atendimento quando fica sem água no salão. "Sem a água, não trabalho. Às vezes eu peço água para o vizinho", contou.

Em nota, a Sabesp informou que está investindo mais de R$ 5 bilhões em obras de segurança e resiliência hídrica na Região Metropolitana de São Paulo até o ano que vem. A companhia afirma que, diante da pior estiagem dos últimos dez anos, foram adotadas medidas operacionais para preservar os mananciais, como a redução da pressão na rede durante a madrugada.

A medida de gestão noturna poderá ser revista caso haja melhora significativa nas condições hidrológicas, especialmente no Sistema Cantareira, mas por enquanto permanece como estratégia fundamental para garantir a segurança hídrica da região mais populosa do país.