Multas à Sabesp disparam após privatização, com cratera em Osasco e crise hídrica em SP
O valor das multas aplicadas contra a Sabesp mais que quadriplicou após a privatização da companhia, concluída em 2024 pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), em 2022 foram oito multas, somando R$ 19,5 milhões. Em 2023, houve 12 autuações, totalizando R$ 58,7 milhões. Já em 2024 — ano da desestatização — o número saltou para 37 multas, que somam R$ 250,7 milhões. Em 2025, foram registradas 15 multas enquadradas no novo contrato, somando R$ 232 milhões, e ainda podem ser alvo de recurso.
Cratera em Osasco e aumento expressivo de reclamações
O aumento das multas ocorre em meio a uma alta expressiva nas reclamações de consumidores. Na região metropolitana de São Paulo, o número de queixas quase triplicou em dois anos. Dados da Arsesp mostram que as queixas passaram de cerca de 3,7 mil em 2023 para quase 10 mil em 2024, um aumento de 162%. As principais reclamações são sobre problemas nas contas e falta de água.
Um exemplo recente foi a abertura de uma cratera em uma rua de Osasco após o rompimento de uma adutora da Sabesp, causando transtornos à população local. Além disso, moradores de um condomínio no Horto do Ypê, na região do Campo Limpo, Zona Sul da capital, ficaram mais de 80 horas sem abastecimento após um problema na rede.
Tormento para famílias e custos extras
O condomínio tem cinco torres e cerca de 180 apartamentos. Desde a manhã de 13 de março, nenhuma torneira funcionava. Na casa da professora Geisa Braga dos Santos Barbosa, a rotina virou improviso. A louça ficou acumulada na pia, a roupa suja se amontoou no cesto e a família passou a depender de água mineral para beber e cozinhar. Até a água usada no banheiro precisou ser armazenada em recipientes.
“É um sentimento de nojo e de impotência. A gente precisa da água, que é um serviço essencial, e vive essa situação. A casa está suja, a louça acumulada”, disse Geisa. Ela conta que a situação é ainda mais difícil porque mora com o filho de 5 anos. “Ficar quatro dias sem água é um tormento. Não tem água para lavar roupa, louça, para beber. A gente está na seca mesmo.”
Segundo moradores, várias ligações foram feitas para a Sabesp desde o início do problema. A cada contato, no entanto, eles receberam uma explicação diferente para o desabastecimento. A síndica do condomínio, Luciana Oliveira Tolentino, disse que foi preciso contratar caminhões-pipa para amenizar a situação.
“Normalmente nossa conta de água vem em torno de R$ 5 mil, porque o condomínio tem tarifa social e água de reuso. Mas já gastamos cerca de R$ 11,5 mil só com caminhões-pipa desde sexta-feira [13 de março]”, afirmou. Segundo ela, todas as verificações internas solicitadas pela companhia foram feitas.
Reparos lentos e fiscalização intensificada
Um funcionário que presta serviço para a Sabesp foi ao condomínio na tarde da segunda-feira (16) e identificou que uma peça do registro da rede estava quebrada e precisava ser substituída. Inicialmente, os moradores foram informados de que o reparo só seria feito na manhã seguinte por falta da peça. Pouco depois, o equipamento foi localizado, e o conserto começou. O abastecimento passou a ser retomado de forma lenta, com baixa pressão nas torneiras.
Segundo a Arsesp, as queixas registradas na agência são feitas por consumidores de toda a região metropolitana de São Paulo. Para a agência reguladora abrir um processo, o cliente deve primeiro registrar a reclamação diretamente com a Sabesp. Nos últimos dias, estudantes que moram no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), na Zona Oeste da capital, também relataram falta de água nas redes sociais.
Posicionamento das autoridades
A Sabesp informou que houve oscilações no abastecimento na região por causa de manutenção e reparos de vazamentos. Sobre o caso do condomínio no Campo Limpo, a companhia pediu desculpas aos moradores e não comentou os dados da Arsesp que apontam aumento nas reclamações.
Já a Arsesp afirmou: “A Arsesp informa que monitora e fiscaliza continuamente os rompimentos de tubulações no estado. Nos casos citados, a agência já solicitou esclarecimentos à Sabesp para acompanhar as ações de reparo e mitigação. Desde a desestatização da companhia, entre julho de 2024 e dezembro de 2025, foram realizadas 907 fiscalizações, com aplicação de 13 multas que somam mais de R$ 200 milhões, além de outros 20 laudos em análise. A aplicação de multas não é automática e ocorre quando há descumprimento das normas. As concessionárias são obrigadas a comunicar todos os incidentes à Arsesp, que acompanha cada caso para garantir o rápido restabelecimento dos serviços e a qualidade do atendimento à população.”
A privatização da Sabesp foi concluída com arrecadação de R$ 14,8 bilhões. A empresa é a maior de saneamento do país e atende cerca de 28 milhões de pessoas, mas os dados recentes indicam desafios significativos na qualidade do serviço pós-privatização.
