Alagamentos históricos na Avenida Dom Aguirre reacendem debate sobre eficácia de obras públicas em Sorocaba
As recentes enchentes que assolaram a Avenida Dom Aguirre em Sorocaba, no interior de São Paulo, durante o mês de março de 2026, não representam um episódio isolado na história do município. Localizada às margens do principal curso d'água da cidade, a via e os moradores do entorno enfrentam, há décadas, os impactos devastadores dos alagamentos nos períodos chuvosos.
Investimentos milionários sem soluções definitivas
Um levantamento detalhado realizado pela TV TEM revelou que, ao longo de mais de 20 anos, diferentes gestões municipais executaram obras com o objetivo declarado de conter as inundações. No entanto, os R$ 7 milhões investidos em intervenções ao redor do Rio Sorocaba ainda não produziram resultados eficazes para resolver o problema crônico.
Especialistas apontam que, desde a segunda metade do século XX, o crescimento desordenado das construções em bairros adjacentes ao rio levou ao despejo irregular de esgoto no leito fluvial. Essa urbanização acelerada e sem planejamento adequado transformou as enchentes em um fenômeno cada vez mais frequente e intenso na vida dos sorocabanos.
Alerta técnico sobre ocupação de áreas alagáveis
William Vichete, professor e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), enfatiza a necessidade de intervenções coordenadas, especialmente nas cidades situadas a montante de Sorocaba que integram a mesma bacia hidrográfica. "Se ocuparmos esses espaços com infraestrutura urbana, estaremos repetindo os erros cometidos por grandes capitais, que hoje enfrentam danos ainda mais severos", alerta o especialista.
Vichete argumenta que, do ponto de vista técnico, a ocupação de áreas naturalmente alagáveis inevitavelmente resulta em danos materiais e humanos, além de potencializar as enchentes. "Estamos apenas repetindo a história, o que pode agravar significativamente a situação já crítica que observamos atualmente", completa o pesquisador.
Nova obra controversa: a marginal direita
Em contraste direto com as recomendações técnicas, a Prefeitura de Sorocaba planeja iniciar ainda este ano a construção de uma nova marginal à direita do Rio Sorocaba na Avenida Dom Aguirre. Uma construtora já foi selecionada através de processo licitatório para executar o projeto, que visa conectar a rua Padre Madureira, no bairro Árvore Grande, à alameda Batatais, no Jardim Saira.
Esta obra, orçada em R$ 30 milhões e debatida há anos, gera divisões profundas entre autoridades, ambientalistas e pesquisadores. André Cordeiro, vice-presidente do Comitê de Bacias Baixo e Médio Tietê, expressa preocupação com os riscos associados à nova via. "Existem vários pontos onde tradicionalmente ocorrem alagamentos anuais, e esses locais tendem a se multiplicar em função dessa obra prevista", adverte.
Retrospecto das intervenções realizadas
- 2006: Construção do "Piscinão do Abaeté", posteriormente transformado no Parque das Águas. Investimento municipal: R$ 2,5 milhões.
- 2010: Elevação de dois trechos de pista em 70 centímetros (rua 15 de novembro e região do Corpo de Bombeiros na entrada do bairro Santa Rosália). Investimento municipal: R$ 5 milhões.
- 2023: Desassoreamento do Rio Sorocaba. Investimento estadual: R$ 12 milhões.
- 2026: Projeto da marginal direita. Orçamento previsto: R$ 30 milhões.
Próximos passos e intervenções planejadas
Segundo informações da administração municipal, os próximos meses devem testemunhar a execução de uma obra de canalização de 1,2 quilômetro do Córrego Piratininga, além de um projeto para elevação da pista na avenida XV de Agosto. A prefeitura também prevê a construção de um reservatório de detenção de cheias no Jardim Saira, medidas que buscam complementar as ações já implementadas.
O histórico de intervenções e os debates em torno da nova marginal direita evidenciam os desafios complexos que Sorocaba enfrenta para equilibrar desenvolvimento urbano, proteção ambiental e segurança da população frente às enchentes recorrentes.



