Micronação no deserto atrai 25 mil cidadãos com leis peculiares e ditador fictício
Entre as fazendas de tâmaras do vale de Coachella e a fronteira com o México, uma faixa de deserto queimada pelo sol se estende até onde a vista alcança. Neste cenário árido e remoto do Estado americano da Califórnia, brilha à distância um submarino quebrado e surge uma nação improvável: a República de Slowjamastan, a mais jovem micronação do mundo que já conquistou a lealdade de mais de 25 mil cidadãos.
Um território peculiar no meio do nada
Com um território pouco maior do que seis campos de futebol (4,5 hectares), esta terra árida costuma ser ignorada pelos motoristas que trafegam pela Rodovia Estadual 78. Mas quem se aventura a adentrá-la descobre um mundo surreal onde crocs são proibidos por disposição constitucional e e-mails em "resposta a todos" são ilegais. Ultrapassar o limite de velocidade só é permitido se você estiver correndo para casa com tacos, e o animal símbolo nacional é o guaxinim, que ocupa lugar de destaque na bandeira do país.
No centro deste projeto excêntrico está Randy Williams, conhecido como o "Sultão de Slowjamastan". Quando não está cuidando dos cerca de 25 mil "cidadãos" desta ditadura coberta de areia, ele é diretor de programação de estações de rádio em San Diego, onde é conhecido como "R Dub" e apresenta desde 1994 o programa Sunday Night Slow Jams, retransmitido por mais de 250 emissoras mundialmente.
O nascimento de uma nação fictícia
A ideia surgiu durante o lockdown da pandemia de covid-19 em 2020. Williams, apaixonado por viagens que havia visitado quase todos os países reconhecidos pela ONU, ficou preso em casa com muito tempo disponível. "Se eu não posso visitar outro país, por que não criar um?", pensou. Ele então adquiriu um terreno de 4,5 hectares no deserto por US$ 19,5 mil em 2021 e deu início ao seu projeto criativo definitivo.
Com a ajuda do amigo Mark Corona, Williams começou a demarcar o território, instalando placas na rodovia que proclamavam a nova nação. As autoridades locais inicialmente se preocuparam com a proximidade das placas da estrada, mas após reposicioná-las, o projeto seguiu em frente. "As pessoas passavam por ali imaginando que diabos estaria acontecendo", conta Corona. "Provavelmente pensavam que éramos terroristas, o que meio que acelerou o processo e gerou ainda mais atenção."
Estrutura estatal completa e cidadania gratuita
Slowjamastan rapidamente desenvolveu uma estrutura estatal completa:
- Postos de fronteira improvisados com agentes de imigração
- Força policial própria com cinco caminhões e ambulâncias
- Emissão de passaportes e moeda local
- Divisão do território em Estados como Dublândia e Bucksylvania
- Hino nacional com letra original na melodia de "Rocket Man" de Elton John
A cidadania é aberta e gratuita para todos através de um simples formulário online, enquanto cargos como embaixador custam entre US$ 10 e 25 mensais. Atualmente, a micronação registra cidadãos de 120 países, número que supera nações reconhecidas como Vaticano (1 mil habitantes), Palau (17 mil) e Tuvalu (11 mil).
Refúgio das divisões políticas
O Sultão explica que os slowjamastanis adquirem sua cidadão por diferentes motivos: alguns por curiosidade, outros por diversão, e muitos como refúgio das divisões políticas contemporâneas. "Não é preciso contar como todos estão divididos", afirma Williams. "Toda vez que você abre o Facebook, as pessoas estão perdendo amigos e familiares por razões políticas. Slowjamastan é a fuga de tudo aquilo. Nós proibimos todas as discussões sobre política, exceto a nossa própria."
Stephanie Heddon, que se tornou cidadã após ouvir sobre o país no programa de TV Jeopardy!, declara: "Eu gostaria apenas de agradecer ao Sultão pela alegria que ele trouxe para minha vida. Tudo o que se refere ao país me deixa feliz. E acho que os milhares e milhares de cidadãos slowjamastanis concordam comigo. Esta é uma época muito difícil para todos nós, mas aqui está algo divertido."
Reconhecimento no cenário micronacional
Slowjamastan ganhou reconhecimento no cenário das centenas de micronações espalhadas pelo mundo. Em 2027, sediará a MicroCon, conferência que reunirá delegados de mais de 43 Estados autoproclamados para discutir desde soberania geopolítica até criação de brasões. "É aqui que o cosplay encontra a diplomacia", descreve o site do evento.
Enquanto isso, Williams finalmente completou sua jornada pessoal visitando o Turcomenistão em maio de 2023, o último país que faltava em sua lista de nações reconhecidas pela ONU. Mas Slowjamastan já havia tomado vida própria. "Slowjamastan não me pertence", reflete o Sultão, fazendo uma pausa antes de corrigir-se. "Bem, eu sou um ditador. Mas o país, na verdade, pertence a todos. Ele tem diferentes significados para cada pessoa."
A micronação continua aberta a novos cidadãos e visitantes, mantendo sua placa promissora no deserto: "Aeroporto Internacional Randy Williams — em breve (ou quase)". Enquanto o aeroporto não se concretiza, as conexões humanas já decolaram, unindo pessoas de culturas diversas em torno de uma ideia peculiar que transformou um pedaço de deserto em um fenômeno global.



