China proíbe prática de guardar cinzas em apartamentos devido a custos funerários elevados
Com os preços dos imóveis em queda e a procura cada vez maior por lotes em cemitérios, muitos chineses passaram a guardar cinzas de parentes em apartamentos. Agora, o governo decidiu acabar com essa prática, que se tornou comum em um contexto de custos funerários exorbitantes e crise no setor imobiliário.
Apartamentos transformados em salas de rituais
A maior parte dos chamados "apartamentos de cinzas" está situada em complexos residenciais, com prédios altos e muitas unidades. Esses locais geralmente apresentam janelas lacradas ou cortinas permanentemente fechadas, sendo utilizados como salas de rituais funerários. Velas, luzes vermelhas e urnas alinhadas por geração compõem o cenário desses espaços adaptados.
Segundo a mídia chinesa, essa alternativa pode ser mais barata do que um jazigo em cemitério público e oferece às famílias maior controle sobre os processos funerários. A nova proibição, que entra em vigor esta semana, veta especificamente o uso de imóveis residenciais para guardar restos mortais cremados, além de proibir enterros ou construção de túmulos em áreas não designadas para essa finalidade.
Contexto de envelhecimento populacional e crise imobiliária
Vários fatores contribuíram para o surgimento dessa prática incomum:
- Envelhecimento da população chinesa, com taxa de mortalidade superando a de nascimentos
- Inflação nos serviços funerários – em 2020, custaram quase metade do salário médio anual do país
- Rápida urbanização que pressiona os custos dos limitados lotes de cemitério nas cidades
- Queda de aproximadamente 40% nos preços dos imóveis entre 2021 e 2025
- Crise prolongada no setor imobiliário e campanha contra especulação excessiva
Além disso, os contratos de arrendamento de lotes de cemitério na China têm duração de apenas 20 anos, enquanto os imóveis residenciais oferecem direitos de uso garantidos por 70 anos pelo governo.
Proibição antes do Festival de Qingming e novas regras
A legislação passa a valer poucos dias antes do Festival de Qingming, também conhecido como Dia da Limpeza dos Túmulos, quando as famílias tradicionalmente visitam os jazigos de parentes para arrumá-los e fazer oferendas. A prática dos apartamentos de cinzas é considerada "problemática" pelas autoridades chinesas, conforme explicou Xinyi Wu, doutoranda em antropologia na Universidade da Califórnia.
"Confunde a fronteira entre os espaços para os vivos e os espaços para os mortos, o que é sensível do ponto de vista administrativo e cultural", afirmou Wu à agência de notícias AFP.
Paralelamente à proibição, o órgão regulador do mercado chinês anunciou novas regras para combater fraudes e falta de transparência nos preços dos funerais. Esta não é a primeira medida controversa relacionada a práticas funerárias na China – em novembro de 2025, autoridades regionais do sudoeste do país impuseram uma ordem de cremação obrigatória que gerou protestos da população miao, uma das principais minorias étnicas da província de Guizhou.
Para essa comunidade, a cremação é interpretada como um gesto de desrespeito à pessoa falecida, pois a destruição do corpo representaria sua desconexão da família e da ancestralidade. O caso ilustra os complexos desafios que a China enfrenta ao equilibrar tradições culturais, pressões demográficas e limitações urbanas em um país que continua sendo o mais populoso do mundo.



