São Luís na disputa por reconhecimento como principal destino de afroturismo do país
A cidade de São Luís, capital do Maranhão, está oficialmente concorrendo ao prestigioso título de melhor destino nacional no 4º Prêmio Afroturismo na Rota. Esta iniciativa inovadora tem como objetivo central valorizar e promover lugares, histórias e experiências profundamente conectadas com a rica identidade negra brasileira, oferecendo um contraponto significativo aos tradicionais roteiros turísticos.
Um novo olhar sobre a história e a cultura maranhense
Durante décadas, o turismo em São Luís priorizou a exibição de suas impressionantes paisagens, dos majestosos casarões coloniais e dos grandes monumentos históricos, com um foco predominante nas heranças culturais de origem europeia. No entanto, um movimento transformador vem ganhando força e espaço, evidenciando de forma poderosa a história e o protagonismo negro que sempre estiveram presentes, mas muitas vezes invisibilizados.
Coordenado pela diretora do Instituto da Cor ao Caso, Anitta Machado, um roteiro turístico especializado tem sido desenvolvido justamente para iluminar essas narrativas. "O percurso começa na Praça dos Poetas, no coração do Centro Histórico de São Luís", explica Anitta. "Temos representações de Maria Firmina dos Reis e de Gonçalves Dias, que por muito tempo foi lido como escritor branco. Mas hoje temos acesso a informações de pesquisadores que mostram que ele é um grande ícone negro da nossa história dentro da literatura."
O caminho ancestral: reconexão com as raízes afro-brasileiras
O trajeto cuidadosamente planejado segue pelo emblemático Beco Catarina Mina, revelando, entre memórias e contrastes urbanos, a força indomável das raízes negras no Maranhão. Catarina Mina era uma mulher negra nascida em São Luís no século XIX, originária da Costa da Mina, que conseguiu comprar a própria liberdade através do seu trabalho, tornando-se um símbolo de resistência e autonomia.
Segundo dados dos organizadores, um dado revelador chama a atenção: aproximadamente 76% das pessoas que realizam este chamado "caminho ancestral" são próprios maranhenses. Eles buscam, acima de tudo, se reconectar com a sua própria identidade e com a história afro-brasileira, além de reconhecer São Luís como um território extraordinariamente rico em cultura, história e diversidade.
Espaços de memória e resistência em destaque
Uma das categorias do prêmio avalia especificamente a experiência oferecida por espaços culturais aos visitantes. Nesses locais, cada ambiente é projetado para mostrar o que representa um quilombo na contemporaneidade: um território vivo de memória, resistência e identidade ativa.
A Casa Novo Quilombo se destaca como um dos espaços finalistas na premiação. Localizada no bairro da Liberdade, considerado um dos maiores quilombos urbanos da América Latina, este centro cultural reúne, de forma interativa e envolvente, elementos fundamentais da cultura negra, como o reggae e as diversas expressões de religiosidade de matriz africana.
"Na prática, isso significa vivenciar a cidade de uma forma completamente nova", destacam os idealizadores. "O turista deixa de ser apenas um espectador passivo e passa a ouvir, caminhar e sentir profundamente histórias que sempre estiveram presentes, mas que agora são contadas com a voz e a perspectiva de seus verdadeiros protagonistas."
Frequentemente, são os próprios moradores de São Luís que, ao percorrerem esses roteiros, redescobrem capítulos fundamentais da sua própria história e se tornam guardiões dedicados à missão de mantê-la viva e pulsante para as futuras gerações. A candidatura de São Luís ao prêmio Afroturismo na Rota representa, portanto, muito mais do que uma simples competição; é um reconhecimento do valor inestimável da cultura afro-brasileira e um passo importante na reescrita da narrativa turística nacional.



