Afroturismo e vinho: experiência com samba faz vinícola crescer no Sul do país
Um passo aqui, outro ali — e o samba dá o ritmo a uma tradição centenária que ganha novos significados no interior do Rio Grande do Sul. Em Poço das Antas, a pisa da uva foi reinventada como uma experiência de afroturismo, unindo vinho, memória, identidade e empreendedorismo em uma proposta que está transformando o setor vitivinícola local.
Miriam Santiago: da advocacia à valorização da história negra no vinho
À frente da iniciativa está Miriam Santiago, produtora rural e proprietária da vinícola Sítio Rosa do Vale, que encontrou na valorização da história negra um diferencial de negócio inovador. "Ao juntar a roda de samba com a pisa da uva, a gente conta uma história que não costuma ser contada: a história das pessoas negras com o vinho", explica a empreendedora, destacando que a proposta vai além do produto e convida os visitantes a vivenciar processos ancestrais da produção vinícola, embalados por música e narrativa cultural.
A relação de Miriam com a terra vem de longe. Filha de trabalhadores rurais do interior de São Paulo, cresceu vendo os pais e o irmão enfrentarem condições duras no campo. Formada em Direito, acreditava que a ascensão social viria longe da agricultura, mas o caminho mudou após se mudar para o Rio Grande do Sul, onde decidiu trabalhar na propriedade da família do marido e agregar valor à produção local.
Investimento em conhecimento e o surgimento do "Samba na Uva"
O primeiro passo foi investir em conhecimento especializado. Miriam fez cursos de viticultura voltados para mulheres, formação em vinificação e iniciou a graduação em Enologia. Com investimento inicial de R$ 50 mil, deu início à agroindústria, que depois exigiu novos aportes para a construção da estrutura física. Hoje, além dos vinhos, a vinícola produz sucos integrais, geleias e licores, diversificando a oferta.
Mas foi ao apostar na experiência turística que o negócio ganhou fôlego significativo. Surgiu assim o "Samba na Uva", uma atividade que combina:
- Pisa simbólica das uvas
- Roda de samba ao vivo
- Tour pela propriedade com passeio de trator pelas parreiras
- Degustação de produtos locais
A iniciativa se apoia em pesquisas históricas que mostram que a pisa da uva é um dos processos mais antigos da vinificação, desenvolvido no Egito Antigo e difundido pela Europa, com forte participação de pessoas negras ao longo da história, um aspecto muitas vezes esquecido nas narrativas tradicionais do vinho.
Crescimento expressivo e estratégias de mercado
O resultado foi expressivo em termos financeiros. Entre 2024 e 2025, o faturamento da vinícola cresceu impressionantes 248%, impulsionado tanto pelo turismo quanto pela ampliação das vendas para grandes redes de supermercados. "Vinho não é só um produto. As pessoas compram a história também. Quando conhecem essa história diretamente de quem produz, o valor muda", afirma Miriam, destacando a importância da narrativa cultural no valor agregado.
Para chegar às gôndolas dos supermercados, a empreendedora destaca a importância de participar ativamente de feiras do setor e manter persistência constante. "Você tem que ser incansável. Entrar no supermercado não significa que o desafio acabou. A marca ainda precisa se apresentar ao consumidor", reforça, mostrando que o sucesso exige esforço contínuo além da conquista inicial.
Planos futuros: experiências intimistas e exportação para a África
O plano de negócios, no entanto, vai além dos números e busca criar experiências mais profundas. A proposta é desenvolver vivências intimistas, em grupos menores, nas quais o visitante possa colher a uva pessoalmente, acompanhar todo o processo de produção e entender o que existe por trás de cada garrafa. "Não é só vinho. São muitas histórias", resume Miriam, encapsulando a essência do projeto.
Entre a terra, o samba e o vinho, Miriam transformou tradição em estratégia comercial e identidade em valor de mercado. Para o futuro, os planos incluem alcançar novos mercados e realizar um antigo desejo: exportar os vinhos, especialmente para países do continente africano, reforçando os laços culturais que inspiraram o negócio desde o início e criando pontes internacionais baseadas na herança compartilhada.
