Tradições da Semana Santa: Ofício das Trevas e Encomendação das Almas em Juruti Velho
Tradições da Semana Santa em Juruti Velho: Ofício das Trevas e Encomendação das Almas

Tradições da Semana Santa: Ofício das Trevas e Encomendação das Almas em Juruti Velho

Pelo segundo ano consecutivo, a Paróquia Missionária do Sagrado Coração de Jesus, localizada na Vila Muirapinima, em Juruti Velho, no oeste do Pará, reuniu fiéis nesta Sexta-Feira Santa para a celebração do Ofício das Trevas. Esta liturgia solene encena a Paixão de Cristo, convidando os participantes à reflexão, ao silêncio e à interiorização diante da morte do Salvador, renovando a esperança na ressurreição.

O simbolismo do Ofício das Trevas

A celebração é marcada pelo apagamento gradual de 15 velas dispostas em um candelabro triangular. Este ato simboliza o abandono de Jesus e a escuridão de sua morte, culminando em um silêncio absoluto que representa a profunda tristeza da Paixão. As velas, que inicialmente representam a luz e a glória de Cristo, vão se extinguindo diante do sofrimento vivido.

“Houve esse momento de trevas na terra e no céu, mas, na promessa do Salvador, surgiu a luz eterna que já existia desde o princípio”, destacou o padre Reginaldo, responsável pela condução da celebração. Ele acrescentou: “Muitas vezes enfrentamos trevas em nossas vidas — na família, no lar, no pessoal —, mas tudo isso passa com a ação de Deus”.

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Durante a cerimônia, os fiéis receberam fitas para fazer pedidos especiais, que foram amarradas a uma cruz próxima ao altar, em sinal de fé e entrega. “A cruz, para nós, é vida, libertação e salvação. É nela que depositamos nossos pedidos, confiando no amor de Cristo”, afirmou o sacerdote.

O silêncio solene é interrompido pelo som das matracas — instrumentos de madeira que produzem um ruído forte e marcante — simbolizando o caos, o terremoto e a desordem da natureza diante da morte de Jesus.

A Encomendação das Almas: uma tradição de 52 anos

Outro momento marcante da Sexta-Feira Santa em Juruti Velho é a tradicional Encomendação das Almas, realizada há 52 anos na Vila Muirapinima. Este ritual acontece nas noites da Quinta e Sexta-Feira Santa, mobilizando moradores da comunidade em uma caminhada pelas ruas da vila.

A prática é liderada pela aposentada Iracilda Natividade, de 72 anos, que, junto a um grupo de moradores, percorre as ruas rezando e cantando pelas almas do purgatório e pelos entes falecidos. Trata-se de uma tradição religiosa popular brasileira, especialmente presente no período da Quaresma, introduzida na comunidade pelo falecido esposo de dona Iracilda em 1974.

“Antigamente, apenas os homens participavam. Hoje, contamos com a presença dos jovens, o que nos dá esperança de que essa tradição não vai desaparecer”, destacou dona Iracilda.

Detalhes do ritual da Encomendação

Durante o percurso, o grupo visita residências, enquanto o início e o encerramento do ritual são marcados pelo toque de um pequeno sino conduzido por dona Iracilda. Velas são acesas em pontos específicos do trajeto, locais onde, segundo a crença, ocorreram mortes.

“A gente acredita que, quando acendemos essas velas, as almas nos acompanham e se sentem lembradas. Isso traz alívio para elas”, explicou.

Os participantes utilizam mantos sobre a cabeça em sinal de respeito, acreditando que as almas seguem junto ao grupo durante a caminhada. Em frente às casas onde há velas acesas, entoam cânticos tradicionais, como o Bendito da Semana Santa, reforçando os pedidos de oração, especialmente na Sexta-Feira Santa, data que relembra a morte de Cristo.

O ritual é encerrado no cemitério da Vila Muirapinima, onde, segundo a tradição, as almas são “devolvidas”. “Durante o percurso, elas caminham conosco. Ao chegar aqui, fazemos os agradecimentos e elas ficam agasalhadas, em paz”, finalizou dona Iracilda.

Estas celebrações em Juruti Velho destacam a riqueza das tradições religiosas brasileiras durante a Semana Santa, unindo a comunidade em momentos de fé, reflexão e memória.

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