Em São José do Rio Preto (SP), uma história incomum tem chamado a atenção nas igrejas católicas: o operador Fernando Henrique Pacheco, de 39 anos, assistiu ao batizado do filho ainda bebê, enquanto ele mesmo recebeu o sacramento anos depois. Esse exemplo reflete uma mudança discreta, mas significativa: o aumento do número de adultos que decidem se batizar na cidade.
Batismo após o filho
Em entrevista, Fernando reconheceu que é curioso ter recebido o sacramento depois do filho. "Meu filho foi batizado com poucos meses. Já eu demorei. Nunca tinha dado importância. Esse é o tempo de Deus", conta. Criado em uma família que não seguiu o ritual durante sua infância, ele levou a vida adulta sem se aproximar da prática religiosa. A virada, segundo ele, não veio por obrigação, mas de um processo natural, influenciado pela convivência com a esposa e pela experiência na igreja. "Eu fui, conheci as pessoas, gostei da forma como acolhem, da fé. Aí senti que era a hora", diz.
Mudanças práticas
A decisão levou Pacheco à catequese de adultos, um processo que durou cerca de um ano até o batismo. A celebração em São José do Rio Preto reuniu outros fiéis na mesma situação. A experiência trouxe mudanças práticas no dia a dia. "A gente aprende a pensar mais antes de agir, a ter mais paciência, a olhar mais para o próximo. Não é que a gente muda da noite para o dia, mas vai buscando ser melhor", explica. Hoje, ele frequenta as missas regularmente, muitas vezes ao lado do filho adolescente, que entrou na igreja bem antes do pai.
Mais adultos do que crianças
Tradicionalmente associado a recém-nascidos, o batismo agora também marca recomeços na vida adulta. Só em uma celebração do Sábado Santo, em 4 de abril, 68 adultos foram batizados em São José do Rio Preto. No mesmo período, 132 receberam a primeira comunhão e 119 foram crismados, segundo dados da arquidiocese. O movimento também aparece na procura pela catequese. No Santuário São Judas Tadeu, por exemplo, há mais adultos inscritos do que crianças para o próximo ciclo: pouco mais de 40 adultos contra cerca de 30 crianças, o que levou à abertura de novas turmas.
Adultos de volta à igreja
O caminho do comprador Renan Zanuto de Queiroz, de 31 anos, foi diferente, mas também passou por um momento de virada pessoal. Batizado na infância, ele nunca deu continuidade à formação religiosa, até enfrentar um período de questionamentos. "Eu estava me sentindo sozinho e precisava tomar um rumo", conta. Após frequentar outras religiões, ele voltou à Igreja Católica e decidiu iniciar a catequese de adultos. "Foi a melhor decisão que tomei. Me ajudou a ser mais humilde, mais acolhedor, a valorizar mais minha família", afirma. A rotina dele também mudou: hoje participa das missas semanalmente e mantém o hábito de oração diária. A transformação não ficou restrita a ele. "Minha família começou a frequentar mais também, e minha namorada decidiu entrar na catequese. Acaba influenciando quem está perto", afirma. Ele e a companheira planejam viajar para o Vaticano, onde ela já esteve, participando de missa com o então Papa Francisco. Antes, porém, os dois planejam se casar.
Fé que recomeça
Para o padre Carlos Ciol, reitor do Santuário de São Judas Tadeu, o crescimento do número de adultos buscando o batismo está ligado a uma decisão mais consciente de fé. "O adulto não está ali apenas por tradição, mas por escolha, por uma busca de sentido", afirma. Ele percebe que muitos adultos não foram batizados na infância por diferentes circunstâncias, enquanto outros se afastaram da fé e retornaram mais tarde. Padre Carlos pontua que há situações em que a motivação inicial é prática, como o desejo de se casar na igreja. Ele tranquiliza os fiéis: basta que um membro do casal seja batizado para que a cerimônia ocorra. Ainda assim, o processo catequético costuma ampliar a intenção inicial. "Aquilo que começa por uma necessidade acaba se transformando em uma verdadeira experiência de conversão", afirma. Para ele, cuja paróquia registra mais adultos do que crianças na catequese, este deve ser o futuro da igreja. "Penso que esse fenômeno tende a crescer", comenta.
O que é o batismo?
O padre Carlos explica que o batismo é considerado a "porta de entrada" da vida cristã: o primeiro passo para outros sacramentos e para a participação plena na comunidade religiosa. "Não é apenas um rito simbólico, mas é um verdadeiro novo nascimento, porque é pelo batismo que nós nos tornamos novas criaturas, inseridos na vida de Cristo", explica. São sete sacramentos na Igreja Católica, divididos em três grupos:
- Sacramentos da Iniciação: batismo, eucaristia e crisma. Introduzem o fiel na vida comunitária;
- Sacramentos de Cura: unção dos enfermos e confissão (penitência). Curam a alma e o corpo;
- Sacramentos do Serviço: matrimônio e ordem. Consagrados para a salvação de outras pessoas.



