Do interior de São Paulo para os grandes estúdios virtuais: a trajetória de uma tecladista que revolucionou sua carreira
Uma tecladista de Jaú, no interior paulista, conquistou espaço de destaque no cenário musical brasileiro sem precisar abandonar sua cidade natal. Com mais de 17 anos de experiência, Mari Jacintho se tornou referência nas gravações de estúdio, colaborando com artistas consagrados como Fábio Júnior, Anavitória, Marcos e Belutti, Jorge e Mateus, Gabriela Rocha e Teo Rúbia.
Início precoce e inspiração local
A paixão pela música surgiu cedo para Mari, que começou a tocar na igreja aos nove anos. Aos doze, já dava aulas particulares, cobrando modestos R$ 15 mensais por aluno. "Eu lembro que não queria nem terminar a escola, porque falei: 'É isso que eu quero para a vida. Só quero viver da música'", revela a musicista.
O grande impulso veio ao observar o trabalho de seu professor, Henrique Garcia, músico de estúdio que frequentava a mesma igreja em Jaú. Ele foi pioneiro em montar um home studio e enviar gravações à distância para produtores em todo o país. Mari decidiu seguir o mesmo caminho, transformando seu sonho de ver o nome nos encartes de CD em realidade através da tecnologia.
Desafios em um ambiente majoritariamente masculino
Ingressar no universo das gravações profissionais não foi tarefa simples. Quando começou a frequentar estúdios para gravar a base musical - conjunto formado por bateria, baixo, teclado e guitarra - Mari se deparou com um ambiente predominantemente masculino.
"Quando comecei, eu era uma das poucas mulheres na base de estúdio. Sempre vi mulheres no vocal ou na orquestra, mas na parte da base eram poucas. Uma mulher que tocava bateria ou teclado e gravava em estúdio era raridade", recorda.
O preconceito, segundo ela, sempre existiu, embora hoje se manifeste de forma mais velada. "Já cheguei a ouvir de artista: 'Nossa, ela toca?'. Ele não falou isso para nenhum outro músico, só para mim. Mas eu nunca levei isso para o coração", afirma com resiliência.
Carreira internacional sem sair de Jaú
Atualmente, Mari grava para artistas de todo o Brasil diretamente do estúdio montado em sua residência em Jaú. Além das gravações remotas, ela integra a banda que acompanha a dupla Anavitória em turnês nacionais e internacionais, sendo a única mulher além das próprias cantoras.
A tecnologia permitiu que a musicista construísse uma carreira de alcance internacional mantendo suas raízes no interior paulista, demonstrando que é possível alcançar grandes mercados sem migrar para os centros urbanos tradicionais da indústria musical.
Empreendedorismo digital e ensino online
Com o crescimento da carreira como musicista de estúdio, Mari precisou reduzir as aulas presenciais para se dedicar às gravações e turnês. Porém, sua vocação para o ensino nunca foi abandonada.
Em 2018, ao começar a acompanhar Anavitória nos shows, ganhou visibilidade nas redes sociais. "Quando comecei a acompanhar a Anavitória nas turnês, minhas redes tinham cerca de 18 a 20 mil seguidores. Aí virei uma chave e pensei: 'Vou crescer meu perfil'", conta.
O crescimento foi exponencial: um vídeo que viralizou alcançou 1 milhão de visualizações e rendeu 50 mil novos seguidores em apenas um mês. Aproveitando essa audiência digital, Mari uniu sua experiência como professora à nova visibilidade online.
Em parceria com o pianista Kléber Gaudêncio, de Bauru (SP), criou uma escola online voltada para tecladistas cristãos. Lançado em outubro de 2020, durante o auge da pandemia, o projeto começou como um plano B mas rapidamente se transformou em sucesso: seis anos depois, a escola já soma mais de 20 mil alunos espalhados pelo mundo.
Adaptação e aprendizado no mundo digital
O caminho do empreendedorismo digital exigiu flexibilidade e capacidade de adaptação. "No começo, produzimos um curso pensando em um público e tivemos que refazer, porque quem me seguia queria outra coisa. Quem queria comprar não era quem a gente imaginou. Então foi necessário recomeçar", explica Mari.
Para a tecladista, o sucesso financeiro veio como consequência natural do trabalho bem executado. "O dinheiro é consequência. Se eu faço um bom trabalho, ele vem naturalmente. Já gravei músicas por um valor menor do que eu gostaria de cobrar, mas entreguei o meu melhor, e aquilo acabou gerando outros trabalhos", finaliza com a sabedoria de quem construiu uma carreira sólida baseada na qualidade e na perseverança.
A trajetória de Mari Jacintho ilustra como a combinação de talento musical, adaptação tecnológica e visão empreendedora pode transformar uma paixão da infância em uma carreira internacional, tudo sem precisar abandonar as origens no interior brasileiro.



