Gabriel Leone estreia como cantor com álbum 'Minhas lágrimas', uma jornada musical pelo desamor
Após uma década gravando músicas para trilhas sonoras de filmes e séries, o ator Gabriel Leone, de 32 anos, finalmente entra em cena como cantor com o lançamento de seu primeiro álbum, "Minhas lágrimas". O trabalho, disponível desde a última sexta-feira, 6 de março, pelo selo MP,B, prova que um conceito sólido e um intérprete sensível podem superar até mesmo as vozes mais deslumbrantes, mas vazias de alma.
Produção orquestrada e inteligência interpretativa
O que eleva "Minhas lágrimas" à categoria de grande álbum é a combinação da inteligência do canto de Leone – que demonstra um entendimento profundo dos versos que interpreta – com a grandiosidade da produção musical. Sob a batuta de Marcus Preto, diretor artístico e principal incentivador do projeto, e Tó Brandileone, o álbum utiliza cordas e metais de forma suntuosa, mas sempre a serviço dos arranjos precisos.
A big banda formada por talentos como Agenor de Lorenzi (piano, órgão e sintetizadores), Fábio Sá (baixo), Filipe Coimbra (guitarra) e outros músicos de renome garante uma base sonora rica e envolvente. O álbum se situa no universo da MPB, mas também transita pelo rock de atmosfera indie, criando uma conexão única que se evidencia desde a primeira faixa.
Repertório que mergulha nos desertos existenciais
"Minhas lágrimas" é um álbum atravessado por desertos existenciais, com um repertório cuidadosamente selecionado do vasto baú de lados B da MPB. A faixa de abertura, "Cara limpa" (Paulo Vanzolini, 1974), é um samba reconstruído com um arranjo que começa áspero e minimalista, ganha peso do rock e retorna ao minimalismo, fechando um arco condizente com o teor da música.
Leone canta com uma sensibilidade que interioriza o sofrimento entranhado em versos como os de "Choro das águas" (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977), enquanto em "Segredo" (Djavan, 1986) desvenda sentimentos em um arranjo sinuoso. A participação de Ney Matogrosso em "Êta nóis" (Luhli e Lucina, 1984) ameniza o sotaque caipira original, trazendo um contraponto menos melancólico ao álbum.
Destaques e colaborações especiais
O álbum também inclui:
- "Nós dois" (Celso Adofo, 1983), single lançado em dezembro, que descortina uma beleza melódica sobre amor represado.
- "Antes da chuva chegar" (Guilherme Arantes, 1976), com um arranjo que evoca o universo prog dos anos 1970.
- "As portas do meu sorriso" (Fagner e Paulinho Tapajós, 1979), com a participação especial de Juliana Linhares em um tom country-folk.
Em "Assim sem mais" (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão), Leone encara sentimentos de inadequação e solidão com alma de blues e aura de indie-rock. Já "Bolero de Satã" (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) corrobora a inteligência de seu canto, vertendo lágrimas de sangue sem cair no melodrama.
Um gran finale épico
O álbum se encerra com a faixa-título "Minhas lágrimas" (Caetano Veloso, 2006), ouvida em um registro quase épico que arremata o conceito do disco. "Minhas lágrimas" é, no fim, uma ópera do desamor onde Gabriel Leone nasce oficialmente como cantor, colocando sua voz a serviço das canções com a sensibilidade que guia sua travessia pelos desertos da alma.



