Banda do interior de São Paulo homenageia Mamonas Assassinas três décadas após tragédia
Não ter vivido a febre dos Mamonas Assassinas em meados dos anos 1990 não impediu uma banda de Jaú, no interior paulista, de reviver no palco o fenômeno que arrebatou multidões e foi abruptamente interrompido por um acidente aéreo em 1996. Nesta segunda-feira (2), a tragédia que ceifou a carreira meteórica do grupo completa 30 anos, marcando uma geração e inspirando novas homenagens.
Uma homenagem nascida da paixão musical
Inspirada nos integrantes dos Mamonas Assassinas, a banda cover jauense surgiu em 2015, a partir de uma apresentação inicial em um festival estudantil. Liderada por João Gromboni, hoje com 30 anos, a formação incluía Fernando Messias e Luan Ragazzi nas guitarras, João Bueno na bateria e Fernando Bovi no contrabaixo. Curiosamente, a maioria dos membros sequer havia nascido ou era muito criança quando os Mamonas explodiram no cenário nacional.
João, nascido em 1995, revelou em entrevista que conheceu o grupo por influência do irmão mais velho. “Ele é de 1992 e, no auge da banda, tinha uns 3 ou 4 anos. Como ele viveu um pouco daquela época, sempre que chegava o aniversário da morte deles havia muitas homenagens na TV, no Gugu, no Faustão. Isso marcou a infância dele e acabou marcando a minha também, porque eu ouvia junto”, contou.
De brincadeira em escola de música aos palcos da região
A ideia de montar o cover surgiu quase por acaso. A mãe da namorada de João é professora de música em Jaú e há cerca de 15 anos promove audições anuais com os alunos. Alguns integrantes da banda participavam dessas apresentações, e João, frequentador assíduo dos eventos, começou a brincar cantando sucessos como “Pelados em Santos” e “Robocop Gay” durante os ensaios.
A recepção foi tão positiva que decidiram incluir oficialmente algumas músicas dos Mamonas na audição. Ele lembra que foi um “showzaço” com figurino, fantasias e encenações inspiradas nas performances irreverentes dos integrantes da banda original. “Ficou marcado. Hoje, se não colocamos Mamonas nas audições, o pessoal reclama”, explicou.
Pouco tempo depois, o grupo já se apresentava no Festival de Inverno da cidade. O primeiro show oficial, inicialmente planejado para um espaço aberto, precisou ser transferido para o Teatro Municipal devido à chuva. Mesmo sem uma casa lotada, o músico recorda que a apresentação serviu como incentivo para os próximos eventos. “Ali percebemos que deveríamos continuar com o projeto. Foi um hobby, um projeto de que temos muito carinho e uma época que deixa muita saudade”, afirmou João.
O legado atemporal dos Mamonas Assassinas
Atualmente, os integrantes moram em cidades diferentes e não se apresentam com frequência, mas mantêm viva a tradição. Eles se reúnem ao menos uma vez por ano e nunca deixam de tocar nas audições da professora de música onde tudo começou.
Para João, o sucesso dos Mamonas atravessa gerações porque vai além das piadas e músicas engraçadas. “O que torna o trabalho deles atemporal é que eles são o ‘puro suco do Brasil’. Tinham um talento musical nítido, mas somado à alegria, diversão e ao carisma no palco. Se você tirar a piada e o humor, as músicas eram muito bem produzidas. Eram músicos excepcionais com ótimas referências”, destacou.
Ele cita como exemplo faixas como “Jumento Celestino” e “Débil Metal”, que misturam ritmos tradicionais brasileiros e internacionais, como rock pesado, forró e sertanejo. “A identidade brasileira que eles carregavam no palco e aquela alegria caótica tornam o trabalho deles eterno”, completou.
30 anos sem Mamonas: uma tragédia que ainda ecoa
O avião onde os Mamonas estavam caiu no dia 2 de março de 1996, após um show em Brasília. O grupo embarcou em um jatinho com destino a Guarulhos, mas a aeronave colidiu contra a Serra da Cantareira, na Zona Norte da capital paulista. Morreram Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli.
Três décadas depois, as famílias anunciaram a criação de um memorial ecológico no Cemitério Primaveras, em Guarulhos. Para a criação do memorial, os corpos dos integrantes dos Mamonas Assassinas foram exumados no dia 23 de fevereiro. Durante a exumação, objetos encontrados sobre os caixões chamaram atenção, como uma jaqueta de nylon colocada sobre o caixão de Dinho, que permaneceu intacta após 30 anos, e um ursinho de pelúcia sobre o de Bento. As peças devem integrar o acervo do futuro memorial.
João reflete sobre o impacto duradouro da tragédia: “A interrupção do sonho da maneira que foi, com cinco adultos vivendo um auge absurdo e tendo tudo interrompido tragicamente, faz com que a gente não esqueça. Talvez daqui a 30 anos a gente esteja fazendo a mesma coisa com a Marília Mendonça”, finalizou, destacando como a memória dos Mamonas continua a inspirar novas gerações de músicos e fãs.



