Juçara Marçal, cantora e compositora fluminense que se destacou há doze anos com o aclamado álbum 'Encarnado' (2014), consolida sua posição como nome de destaque da cena independente paulistana ao lado da pianista Thais Nicodemo no lançamento de 'Dessemelhantes'. O disco, que chega ao mercado fonográfico digital em 7 de maio pela gravadora YB Music, com capa assinada por Gina Dinucci, é originado de um show apresentado pelas artistas em São Paulo e reúne nove faixas de compositores que integram o universo musical de Juçara.
Uma atmosfera de vanguarda
Desde a primeira faixa, 'Isso é o que se diz, irmão' (Guilherme Held e Eduardo Climachauska, 2020), o álbum se ambienta em um clima de experimentação. Thais Nicodemo utiliza um piano preparado, com objetos como latinhas, papéis, pregadores e placas de metal inseridos entre as cordas, turbinando o som do instrumento. Juçara Marçal, além de cantar, opera sampler e synth bass, desmantelando e remodelando as estruturas das músicas selecionadas, que não incluem hits.
Faixas e colaborações
A canção 'Maria', de Maria Beraldo, originalmente lançada no álbum 'Cavala' (2018), mescla elementos eruditos e vanguardistas, com vocais e efeitos sonoros que recontam a saga autobiográfica da personagem-título. A presença de Maria Beraldo e Negro Leo no repertório é sintomática, pois ambos transitam no espaço de invenção habitado décadas atrás por antecessores como Arrigo Barnabé. A música-título 'Dessemelhantes' é assinada por Juçara Marçal com Thiago França.
Densidade e delicadeza
O álbum oferece momentos de respiro, como na delicada 'Cavaquinho' (Rodrigo Campos, 2009), onde o piano soa como uma caixinha de música. No entanto, predominam tensões, ruídos percussivos, efeitos eletrônicos e dissonâncias em faixas como 'Eu não duro' (Romulo Fróes e Eduardo Climachauska, 2019) e 'Merecedores' (Kauê Batista, 2022). Em 'É mesmo assim' (Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, 2011), Juçara canta 'Vai querer, querer, querer, querer / Zombar de mim', como provocação ao ouvinte.
Um disco desafiador
O álbum encerra com a ironia mordaz de 'A gente se fode bem pra caramba' (Kiko Dinucci, 2017), sublinhando o caráter desafiador de 'Dessemelhantes' em um mercado que repudia o que não é fácil ou repetitivo. 'Dessemelhantes' é um disco feito para desnortear e apontar novos caminhos na música brasileira contemporânea.



