Exposição em Londres resgata obra e rivalidade de Elsa Schiaparelli com Coco Chanel
Exposição em Londres celebra Elsa Schiaparelli, rival de Coco Chanel

Exposição em Londres resgata obra e vida da grande rival de Coco Chanel

A trajetória revolucionária da estilista italiana Elsa Schiaparelli, pioneira da moda surrealista e principal adversária de Coco Chanel, está sendo celebrada em uma grandiosa exposição no prestigiado Victoria and Albert Museum, em Londres. Intitulada "Schiaparelli: Fashion Becomes Art", a mostra permanecerá em cartaz até novembro, apresentando mais de duzentas peças que iluminam uma carreira marcada por inovação, ousadia e influência duradoura.

Uma vida extraordinária e uma rivalidade histórica

Nascida em Roma em 1890, em uma família aristocrática de intelectuais, Elsa Schiaparelli parecia destinada a uma existência convencional. No entanto, seu espírito rebelde logo se manifestou quando, ainda jovem, escandalizou a todos ao publicar poemas eróticos inspirados em uma ninfa grega. Como punição, foi enviada para um convento na Suíça, de onde escapou após uma greve de fome. Sua vida tomou rumos imprevisíveis: casou-se em apenas 48 horas com um conde em Londres, mudou-se para Nova York, separou-se, criou a filha sozinha e, no início dos anos 1920, estabeleceu-se em Paris, mergulhando no frenesi dos "anos loucos".

Foi na capital francesa que Schiaparelli travou uma das rivalidades mais fascinantes da história da moda com Coco Chanel. A disputa entre as duas representava uma batalha simbólica entre visões opostas: enquanto Chanel defendia simplicidade, funcionalidade e uma sofisticação discreta, Schiaparelli abraçava o exagero, o humor e a teatralidade. A francesa referia-se à rival como "aquela italiana que faz roupas", ao que "Schiap", como era carinhosamente chamada, retrucava chamando Chanel de "uma chapeleira que se leva muito a sério".

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Pioneirismo e parcerias surrealistas

Elsa Schiaparelli não foi apenas uma rival formidável; foi uma verdadeira revolucionária. Em 1934, tornou-se a primeira estilista a estampar a capa da revista Time, um marco histórico. Sua marca, que ainda existe sob direção criativa de Daniel Roseberry e é usada por personalidades como Lady Gaga, foi pioneira em inúmeras inovações:

  • Utilizou materiais incomuns como metal e plástico em suas criações
  • Transformou recortes de jornal em tecido muito antes de John Galliano
  • Criou o torso de uma mulher como frasco de perfume antecipando Jean Paul Gaultier

Porém, foi sua amizade e colaboração com Salvador Dalí que produziu as peças mais extraordinárias de sua carreira e talvez do século XX. Dessa parceria nasceram criações icônicas que desafiavam convenções:

  1. O vestido-esqueleto, uma fusão entre moda e anatomia
  2. O chapéu em forma de sapato usado de cabeça para baixo
  3. A bolsa-telefone, que transformava objetos cotidianos em acessórios
  4. O célebre vestido lagosta de 1937, com o crustáceo pintado por Dalí

Este último modelo entrou definitivamente para a história quando foi usado por Wallis Simpson, a mulher divorciada cujo relacionamento levou o rei Edward VIII a abdicar do trono britânico.

Legado e reconhecimento tardio

Apesar de sua influência sobre grandes nomes da moda como Yves Saint Laurent e Hubert de Givenchy, e de ter conquistado Hollywood com clientes como Marlene Dietrich, Katharine Hepburn, Lauren Bacall e Greta Garbo, o nome de Schiaparelli permaneceu menos conhecido que o de seus pares masculinos. A exposição no V&A busca corrigir essa lacuna histórica, apresentando não apenas suas roupas e acessórios, mas também fotografias e pinturas que contextualizam sua trajetória.

Enquanto Chanel construía um império comercial com peças práticas como o tailleur de tweed e o pretinho básico, Schiaparelli seguia pelo caminho do imaginário, criando uma moda difícil de usar, mas impossível de ignorar. Sua filosofia, encapsulada em uma de suas frases prediletas, continua ressoando: "Em tempos difíceis, a moda é sempre ultrajante".

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A mostra londrina não apenas celebra uma estilista visionária, mas também reavalia seu lugar na história, destacando como sua abordagem surrealista e irreverente antecipou tendências e continua a inspirar criadores contemporâneos. Em um mundo ainda marcado por convenções, a ousadia de Schiaparelli permanece como um testemunho do poder transformador da criatividade sem limites.