Estilista paulistana viraliza com roupas que simulam pele humana e conquista celebridades
Uma regata que parece ter sido confeccionada com pele humana, apresentando textura realista, cicatrizes e até tatuagens, embalada em uma marmita de alumínio como se fosse comida. Esse vídeo extraordinário ultrapassou a marca de 20 milhões de visualizações nas redes sociais, gerando uma mistura de fascínio e horror entre os espectadores. A peça é criação da talentosa estilista paulistana Ludmila Obrigon, cuja marca homônima nasceu a partir de um Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade de moda.
Reação nas redes e conceito provocativo
A recepção do público foi intensa e diversificada. "Imagina se os Correios têm que abrir a caixa", comentou um usuário, enquanto outros, em diversos idiomas incluindo o russo, expressaram confusão: "Me diz o que é isso, por favor". Para Ludmila, essa reação é quase um experimento social que valida sua pesquisa acadêmica sobre a "demonização do feio e do esquisito". Criada sob influência do rock emo e de desenhos alternativos, ela sempre se interessou pelo que era considerado diferente, ingressando na faculdade de moda mesmo sem saber costurar inicialmente.
Da faculdade ao lançamento da marca
"No final do ano de conclusão, um colega que se encantou pelo meu trabalho me questionou: 'O que vai ser da Provoke agora?'. Foi com essa pergunta que eu comecei a tirar do papel o sonho de ter uma marca", revelou Ludmila em entrevista. Com a chegada da pandemia de COVID-19, a marca foi lançada experimentalmente no final de 2020, abandonando o nome Provoke e adotando definitivamente Obrigon. Nos primeiros momentos, não havia investimento significativo, sendo um período marcado por testes até que a identidade visual se consolidasse plenamente.
Inspirações variadas e conceito do "estranho familiar"
As criações da estilista bebem de fontes extremamente variadas, desde tardes assistindo clipes da MTV de Lady Gaga e Green Day até a paixão por filmes de terror e diretores consagrados como David Cronenberg e Gaspar Noé. Na moda, suas referências passam por nomes icônicos como Alexander McQueen e Rei Kawakubo. Contudo, o cerne de seu trabalho reside no conceito alemão "Unheimlich", ou o "estranho familiar".
Ludmila explica detalhadamente: "Gosto de pegar um elemento extremamente comum, como nosso corpo ou pele, e tirar de contexto, colocar em um lugar em que ele ‘não deveria estar', como a vestimenta. É algo simples que causa uma comoção gigante entre o público, que cria muitas teorias mirabolantes em cima". Segundo o site oficial da marca, o objetivo primordial é "questionar as normas estéticas através da desconstrução do vestuário tradicional e exaltação da auto expressão".
Processo manual e técnicas exclusivas
Diferentemente da produção em massa característica da fast fashion, a Obrigon opera como um ateliê genuíno, com um processo inteiramente manual e autoral. Ludmila desenvolveu suas próprias técnicas de manipulação têxtil e aprendeu a trabalhar com látex já dentro da marca. As peças que mais chamam atenção, aquelas que simulam peles tatuadas, são justamente as mais difíceis e desafiadoras de produzir.
"Preparo pedaço por pedaço de látex, pinto cada um deles, para só depois juntar na modelagem final e desenhar em cima. São dias de processo, como uma obra de arte mesmo", detalha a estilista. O trabalho é realizado em pequena escala, frequentemente pela própria Ludmila, com apoio pontual no ateliê. Um dos grandes sucessos da marca, a Bolsa Pectus, que simula um busto feminino, surgiu a partir de um manequim bem definido utilizado para modelar o látex, sendo usada posteriormente pelo trapper Matuê.
São Paulo como musa inspiradora
A capital paulista é onipresente no trabalho criativo de Ludmila. Para ela, a cidade inspira profundamente pela "falta de cor, na confusão de texturas, no brutalismo". Ela afirma categoricamente que o ambiente cosmopolita foi essencial para o surgimento e desenvolvimento da marca. "A Obrigon nasceu em São Paulo que é uma das maiores e mais diversas metrópoles do mundo, sabia que tinha público para a marca aqui".
Embora tenha começado focada na cena eletrônica e no techno, hoje a Obrigon atrai principalmente profissionais criativos, como designers, artistas visuais, criadores de conteúdo digitais e arquitetos que buscam peças únicas para se expressar em festivais alternativos e ambientes underground.
Reconhecimento no meio fashion e sonho com Lady Gaga
A aceitação no competitivo meio da moda tem sido extremamente positiva. A Obrigon já estampou capas de grandes revistas nacionais e também publicações internacionais de prestígio. Um dos marcos mais significativos foi a participação no SPFW N59, em parceria com o renomado estilista Dario Mittmann.
O caminho para vestir celebridades começou cedo, ainda em 2020, quando uma stylist conheceu o trabalho a partir do desfile de TCC. "É incrível ver meu trabalho em locais de tamanha visibilidade e prestígio", afirma Ludmila com orgulho. Um momento particularmente marcante foi vestir Alice Glass, ex-integrante da banda Crystal Castles, artista que dialoga diretamente com o universo conceitual da marca. Porém, o grande objetivo internacional permanece firme: "Com certeza sonho em vestir a Lady Gaga, em quase todo post da Obrigon alguém comenta sobre isso".
Expansão e planos futuros
Após a virada de chave proporcionada pela viralização massiva, a Obrigon planeja expandir seus horizontes consideravelmente. O foco principal agora é a internacionalização, com a atualização completa do site para vendas globais e uma maior presença estratégica em eventos internacionais e na mídia especializada.
Atualmente, as vendas internacionais ainda são realizadas manualmente, o que limita o crescimento acelerado, mas Ludmila estuda atentamente o lançamento de produtos em escala para o futuro, pensando em preços mais acessíveis sem jamais abandonar o caráter autoral e conceitual que define a essência da marca.



