Will Lewis deixa comando do Washington Post após onda de demissões e crise no jornal
Will Lewis sai do Washington Post após demissões em massa

Will Lewis, editor-executivo e CEO do The Washington Post, anunciou neste sábado (7) sua saída do cargo, encerrando um período conturbado de apenas dois anos à frente do tradicional jornal americano. A decisão ocorre apenas três dias após a publicação anunciar demissões em massa que afetaram aproximadamente um terço de sua equipe, em um movimento que gerou forte reação interna e externa.

Anúncio em e-mail e contexto de cortes profundos

Lewis comunicou sua partida através de um e-mail de dois parágrafos enviado aos funcionários, afirmando que, após um período de transformação, "agora é o momento certo para eu me afastar". O diretor financeiro do Post, Jeff D'Onofrio, foi nomeado como editor-executivo interino, assumindo o comando em um momento particularmente delicado para a organização.

As demissões anunciadas na quarta-feira foram mais profundas do que o inicialmente previsto, resultando no fechamento da renomada editoria de esportes, na eliminação completa da equipe de fotografia e em cortes significativos nas equipes responsáveis pela cobertura da região metropolitana de Washington e do exterior. Nem Lewis nem o bilionário proprietário do jornal, Jeff Bezos, participaram da reunião que comunicou esses cortes aos funcionários.

Críticas e contexto de crise prolongada

Martin Baron, primeiro editor do Washington Post sob o comando de Bezos, foi um dos críticos mais contundentes da atual gestão. Nesta semana, ele condenou publicamente o antigo chefe por tentativas de agradar o ex-presidente Donald Trump e classificou os eventos recentes no jornal como "um estudo de caso de destruição de marca quase instantânea e autoinfligida".

Os problemas no Post não são recentes. A publicação vem enfrentando uma saída generalizada de talentos nos últimos anos, além de ter perdido dezenas de milhares de assinantes após uma série de decisões controversas. Entre elas, destacam-se a ordem de Bezos para recuar de um endosso planejado à candidata Kamala Harris no final da campanha presidencial de 2024 e uma posterior reorientação da seção de opinião em direção a uma linha mais conservadora.

Trajetória turbulenta de Will Lewis

Nascido no Reino Unido, Will Lewis assumiu o comando do Washington Post em janeiro de 2024, vindo de uma posição de alto executivo no The Wall Street Journal. Seu período à frente da publicação foi marcado por turbulências desde o início, com demissões frequentes e um plano de reorganização fracassado que levou à saída da então editora-chefe Sally Buzbee.

A escolha inicial de Lewis para substituir Buzbee, Robert Winnett, desistiu do cargo após surgirem questionamentos éticos sobre ações dele e de Lewis durante seu período trabalhando na Inglaterra. As acusações incluíam pagamento por informações que renderam grandes reportagens, prática considerada antiética no jornalismo americano.

Lewis também não conquistou a simpatia dos jornalistas da redação ao falar de forma direta e por vezes dura sobre o trabalho da equipe. Em uma reunião interna, ele chegou a afirmar que mudanças eram necessárias porque poucas pessoas estavam lendo as matérias produzidas, declaração que gerou mal-estar entre os profissionais.

Reações e futuro incerto

O Washington Post Guild, sindicato que representa os funcionários do jornal, emitiu uma nota contundente sobre a saída de Lewis: "Seu legado será a tentativa de destruição de uma grande instituição do jornalismo americano", afirmou a organização. O sindicato ainda fez um apelo direto a Jeff Bezos: "Jeff Bezos deve rescindir imediatamente essas demissões ou vender o jornal a alguém disposto a investir em seu futuro."

Em sua nota de despedida, Lewis elogiou Bezos, afirmando que "a instituição não poderia ter tido um dono melhor". Ele também defendeu suas decisões: "Durante meu mandato, decisões difíceis foram tomadas para garantir o futuro sustentável do Post, para que ele possa, por muitos anos, publicar jornalismo de alta qualidade e apartidário para milhões de leitores todos os dias."

Bezos, por sua vez, não mencionou Lewis em seu comunicado sobre a nomeação de D'Onofrio, limitando-se a afirmar que o novo editor interino e sua equipe estão posicionados para levar o Post a "um próximo capítulo empolgante e próspero". O bilionário destacou ainda: "O Post tem uma missão jornalística essencial e uma oportunidade extraordinária. Todos os dias nossos leitores nos dão um roteiro para o sucesso. Os dados nos dizem o que é valioso e onde focar."

Desafios do novo comando interino

Jeff D'Onofrio, que ingressou no jornal em junho do ano passado após passagens por empresas como Raptive, Google, Zagat e a Major League Baseball, assumirá o comando em um momento particularmente desafiador. Em sua primeira mensagem à equipe, ele reconheceu: "Estamos encerrando uma semana difícil de mudanças com mais mudanças".

O novo editor-executivo interino acrescentou: "Este é um momento desafiador para todas as organizações de mídia, e o Post infelizmente não é exceção. Tive o privilégio de ajudar a traçar o rumo tanto de empresas disruptivas quanto de instituições culturais tradicionais. Todas enfrentaram ventos econômicos contrários em setores em transformação, e estivemos à altura desses momentos. Não tenho dúvida de que faremos o mesmo, juntos."

As demissões desta semana levaram a pedidos crescentes para que Jeff Bezos aumente seus investimentos no jornal ou o venda a alguém que tenha um papel mais ativo em sua gestão. O futuro do Washington Post, uma das instituições jornalísticas mais tradicionais dos Estados Unidos, permanece incerto enquanto a publicação navega por uma das crises mais profundas de sua história recente.