Morre Waldirene Nogueira, pioneira na cirurgia de redesignação sexual no Brasil
Waldirene Nogueira, a primeira mulher trans a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, faleceu nesta terça-feira (19) em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, aos 78 anos. A causa da morte foi insuficiência respiratória aguda, conforme confirmado pela família. Ela havia nascido em Lins, interior paulista, em 1945.
O corpo será velado na manhã desta quarta-feira (20), a partir das 7h, no Memorial Santa Izabel, em Lins. O enterro está previsto para as 17h, no Cemitério da Saudade.
O pioneirismo e o alto custo pessoal
Waldirene foi submetida à cirurgia de redesignação sexual em dezembro de 1971, quando tinha 26 anos, pelo cirurgião plástico Roberto Farina, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A intervenção, considerada a primeira do tipo no país, foi realizada sem custos para a paciente. No entanto, o pioneirismo veio acompanhado de um alto custo pessoal: ela enfrentou processo judicial, humilhações públicas e décadas vivendo com documentos incompatíveis com sua identidade de gênero.
Infância e juventude em Lins
Nascida em 1945, em Lins, Waldirene era a nona filha de um caminhoneiro e de uma dona de casa. Foi registrada ao nascer com o nome Waldir Nogueira. Em casa, dormia em um quarto separado dos irmãos, em um espaço adaptado pelo pai na antiga despensa. Durante a adolescência, foi submetida pelo pai a um tratamento com hormônios masculinos. Ainda jovem, afastou-se da família e foi viver em uma cidade vizinha, trabalhando como manicure.
Acompanhamento médico e a cirurgia histórica
Em 1969, Waldirene começou a ser atendida pela endocrinologista Dorina Epps no Hospital das Clínicas de São Paulo. Após dois anos de acompanhamento interdisciplinar e sessões semanais de terapia, recebeu laudo que reconhecia sua condição de transexualidade. A cirurgia foi realizada em dezembro de 1971, sem custos, e é considerada um marco no Brasil.
O pesadelo judicial
Cinco anos após a cirurgia, ao entrar na Justiça para retificar o nome civil, o Ministério Público descobriu o procedimento e denunciou o médico Roberto Farina por lesão corporal gravíssima. Waldirene foi declarada vítima à sua revelia. Em 1976, foi retirada coercitivamente da escola onde estudava inglês e levada ao Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, onde foi obrigada a se despir, fotografada nua em diversas posições e submetida a exame ginecológico com registro fotográfico.
Em 1978, o juiz condenou Farina a dois anos de reclusão. Durante o processo, Waldirene reuniu cartas de autoridades e moradores em defesa do médico, além de um abaixo-assinado com cerca de 350 assinaturas. A sentença foi revertida em segunda instância em 1979.
Vida profissional e documentos
Formada em contabilidade, Waldirene nunca exerceu a profissão devido à divergência entre sua identidade e o nome de registro. Também optou por não tirar carteira de motorista pelo mesmo motivo. A certidão de nascimento com o nome Waldirene só foi alterada em outubro de 2010, quando tinha 65 anos. O RG foi retificado em janeiro de 2011. Ao longo da vida, trabalhou como manicure e viveu de forma discreta. Segundo Alessandra Cotrim, sobrinha de Waldirene, no fim da vida ela estava acamada em Ubatuba, sob os cuidados de um dos irmãos.



