O escritor húngaro László Krasznahorkai, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, lançou duras críticas ao regime do presidente de extrema-direita de seu país, Viktor Orbán. Em entrevista à emissora sueca SVT, o autor, que não reside mais na Hungria, comparou sua pátria a uma mãe problemática, em uma metáfora carregada de dor e amor conflituoso.
Exílio e crítica contundente
Nascido em Gyula, no interior da Hungria, Krasznahorkai optou por não participar das comemorações de sua vitória do Nobel em sua cidade natal. O autor compareceu apenas à cerimônia oficial de entrega da medalha na Academia Sueca, em Estocolmo, em 5 de janeiro de 2026. Seu distanciamento físico reflete um profundo descontentamento político.
Na entrevista, sua declaração foi impactante: "Minha mãe bebe, perde a beleza, briga. Mesmo assim, eu a amo". A frase sintetiza o sentimento de muitos intelectuais húngaros em relação ao país sob o governo de Orbán, no poder desde 2010.
Acusações de controle cultural
A crítica de Krasznahorkai não está isolada. Outros escritores de renome no país, como o premiado Gergely Péterfy, têm levantado a voz contra o que consideram um cerceamento à liberdade cultural. A principal acusação é grave: o governo Orbán teria assumido o controle de uma das maiores editoras do país.
Segundo os acadêmicos e autores, essa intervenção estatal no mercado editorial resultou em uma redução significativa de oportunidades para vozes dissidentes e para a publicação de obras que não se alinham à narrativa oficial. É um controle visto como parte de uma estratégia mais ampla de influência sobre a cultura nacional.
Um cenário de tensão permanente
A situação descrita pelos literatos pinta um quadro de tensão entre o Estado húngaro e a comunidade intelectual. O fato de um ganhador do Nobel, a maior honraria literária do mundo, se posicionar de forma tão direta contra seu próprio governo chama a atenção internacional para as condições políticas na Hungria.
A crítica de Krasznahorkai vai além de um desabafo pessoal; é um registro potente do clima de desilusão e resistência de parte da elite cultural húngara. Seu testemunho reforça preocupações já existentes na União Europeia sobre o respeito aos valores democráticos e à liberdade de expressão no país governado por Viktor Orbán.