O sabor da memória: como os sorrentinos contam a história da imigração italiana na Argentina
Há um tipo de massa que se tornou um verdadeiro símbolo cultural na Argentina: os sorrentinos. Redondos, maiores que os tradicionais raviolis e generosamente recheados, eles foram criados por imigrantes italianos que cruzaram o Atlântico em busca de novas oportunidades na América do Sul. No livro "Os Sorrentinos", da autora argentina Virginia Higa, essa iguaria gastronômica serve como ponto de partida para um romance profundamente humano que explora família, tradição e o poder da comida na construção da identidade de um país.
Uma jornada literária entre memória e ficção
Em entrevista exclusiva, Virginia Higa desvenda os bastidores da criação de sua obra, que acompanha a trajetória de Chiche e sua família, que deixou Sorrento, na Itália, para se estabelecer na Argentina. Em Mar Del Plata, eles abrem primeiro um restaurante e, posteriormente, uma aconchegante trattoria à beira-mar. A autora explica que a ideia do livro surgiu de maneira orgânica, durante um retorno emocionante à cidade de sua infância.
"Quando comecei a escrever, não planejava fazer um romance", revela Higa. "Voltei para Mar del Plata depois de muitos anos e percebi que o restaurante que frequentávamos era como um teatro, com o dono no centro da ação. Comecei a escrever sobre os temas que ocorriam ali, e o material foi crescendo conforme conversava com minha família sobre memórias e histórias de pessoas que já partiram."
Os três pilares da narrativa
A estrutura do romance se apoia em três elementos fundamentais: a história do restaurante e da criação dos sorrentinos, a jornada pessoal do protagonista Chiche e o que Higa chama de "léxico familiar" – uma coleção única de palavras e expressões usadas por sua família. Essa abordagem multifacetada permite uma rica exploração da cultura imigrante.
Sobre a fronteira entre realidade e ficção, a autora oferece uma reflexão perspicaz: "Muitas pessoas me perguntam quanto da história é real. A inspiração veio de pessoas e lugares reais, mas ao colocar no papel, você cria sua própria versão. Coletando memórias de parentes, percebi que cada um tinha uma perspectiva diferente. Para mim, tudo é verdade e tudo é ficção ao mesmo tempo."
A comida como guardiã da identidade cultural
Virginia Higa destaca o papel crucial da gastronomia na preservação das tradições. "Muitas vezes a comida é a única conexão forte que as pessoas mantêm com seus ancestrais quando a língua original é perdida", observa. "Algumas famílias param de falar sua língua nativa para facilitar a integração, mas algo permanece vivo na comida. É uma conexão íntima e emocional."
A autora compartilha um exemplo marcante: "Lembro de uma discussão intensa no Facebook sobre a receita de 'sopa paraguaia', onde as pessoas ficaram verdadeiramente passionais defendendo quem tinha o direito de dar a receita autêntica. Isso mostra o quanto a culinária pode despertar sentimentos profundos."
A rica mistura cultural argentina
Nascida em uma família de imigrantes – com raízes italianas, portuguesas e japonesas – Higa possui uma visão privilegiada sobre o caldeirão cultural que forma a Argentina. "Acredito que nada é 'puro'; somos todos uma mistura, o que faz parte da nossa identidade e nos dá uma visão mais ampla da vida", afirma.
Ela nota um fenômeno curioso: "É interessante observar que imigrantes às vezes ficam 'congelados no tempo'. Meus ancestrais japoneses vieram para a Argentina e o Japão mudou completamente, mas eles mantiveram costumes que já haviam desaparecido em sua terra natal."
Rigor gastronômico e tradições familiares
O livro também aborda as regras estritas que cercam certas tradições culinárias. "Os italianos são muito rigorosos e sentem que alcançaram algo perfeito que não precisa de mudanças", comenta Higa. "Achei fascinante aplicar essa ideia a um prato inventado fora da Itália. Os japoneses também são extremamente meticulosos. Lembro de um filme onde um pai observava como o namorado da filha comia sukiyaki para avaliar se ele era digno dela. Esses detalhes revelam muito sobre uma cultura."
Uma receita literária que atravessa fronteiras
Com sua obra agora disponível em tradução para o português, Virginia Higa expressa surpresa e gratidão pelo alcance internacional de seu trabalho. "É uma linda surpresa. Quando escrevi, não imaginei que alguém de outro país leria. Embora a história seja profundamente argentina, talvez as pessoas se identifiquem porque se trata de uma família, e famílias existem em todos os lugares", reflete.
A autora se emociona ao receber feedback de leitores: "Recebi comentários de pessoas que leram o livro com suas avós, o que é maravilhoso. Fico particularmente feliz que a tradutora brasileira tenha gostado tanto da obra em espanhol a ponto de levá-la para uma editora no Brasil. Depois de publicado, o livro não pertence mais apenas a você; cada leitor cria sua própria interpretação."
Através dos sorrentinos e das histórias que os envolvem, Virginia Higa tece um rico tapete narrativo que celebra a resiliência dos imigrantes, a força dos laços familiares e o poder duradouro da comida como veículo de memória e identidade cultural.



