Pinhão: de tradição indígena a símbolo gastronômico e econômico da Serra da Mantiqueira
Pinhão: tradição indígena vira símbolo gastronômico na Mantiqueira

Pinhão: de tradição indígena a símbolo gastronômico e econômico da Serra da Mantiqueira

Presente na cultura alimentar brasileira há séculos, o pinhão atravessou gerações até se transformar em um dos principais símbolos gastronômicos e econômicos da Serra da Mantiqueira. Em cidades como Cunha (SP), a semente da araucária vai muito além da tradição e hoje é considerada o "ouro da serra".

Origem indígena e valorização contemporânea

Consumido originalmente por povos indígenas, o pinhão sempre teve papel importante na alimentação por ser nutritivo e abundante nas regiões de clima mais frio. Com o passar do tempo, o alimento foi incorporado à culinária caipira e, mais recentemente, ganhou espaço também na alta gastronomia.

"A gente come o pinhão torrado na chapa do fogão à lenha, na brasa, cozido, faz caldinho. E hoje os restaurantes criam receitas que valorizam esse produto que vem lá da roça", explicou Joás Ferreira, presidente da Associação dos Moradores, Produtores Rurais e Empreendedores da Estrada do Paraibuna (Amprasp).

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Segundo ele, o diferencial está justamente na valorização da origem. "É importante que todos valorizem essa origem caipira do pinhão. Essa é uma tradição cultural muito forte para a gente", afirmou.

Cunha: maior produtora paulista

Cunha é o município paulista que mais produz pinhão, com cerca de 800 toneladas por ano. A produção é favorecida pelas características naturais da região, como o clima mais frio e o relevo de montanha, com áreas que chegam a quase 2 mil metros de altitude — condições ideais para o desenvolvimento da araucária, árvore nativa e centenária.

A colheita acontece principalmente em abril e é feita de forma manual. Mais de 200 coletores atuam na cidade, muitos deles agricultores familiares que encontram na safra uma importante fonte de renda extra.

"Alguns consideram o pinhão como um '13º salário', porque ajuda bastante no sustento", disse Joás.

Impacto econômico e cultural

Além do campo, o produto também movimenta a economia urbana. Restaurantes, feiras e eventos gastronômicos aproveitam a safra para atrair visitantes e gerar empregos temporários.

Um dos principais exemplos é a tradicional Festa do Pinhão, realizada na praça central de Cunha. Em sua 24ª edição, o evento reúne produtores, moradores e turistas em torno da gastronomia local.

"A gente vê a festa como uma celebração da safra. É um dos eventos mais importantes da cidade. Só durante a festa, são comercializadas entre quatro e cinco toneladas de pinhão", narrou Joás.

Diversidade gastronômica

Durante o evento, o público encontra desde o pinhão in natura até receitas mais elaboradas, como:

  • Bolos e pães com pinhão
  • Linguiça de pinhão
  • Brigadeiro de pinhão
  • Gelato com a semente
  • Pratos típicos que misturam tradição e inovação

Identidade cultural de Cunha

Com essa combinação de cultura, economia e gastronomia, o pinhão segue firme como um dos maiores símbolos da identidade de Cunha, um alimento simples que conquistou espaço tanto nas cozinhas caipiras quanto nos cardápios mais sofisticados.

"Para nós, o pinhão não é apenas um alimento, é parte da identidade cultural de Cunha e da história das famílias que vivem da araucária. Ele movimenta a economia local, sustenta coletores e agricultores familiares e também ajuda a impulsionar o turismo durante a safra. É uma tradição que veio da roça, do produtor familiar, e hoje ganhou valorização na gastronomia sem perder sua origem caipira. No fim, o pinhão é um símbolo vivo de Cunha", afirmou Joás Ferreira.

O pinhão é formado por uma casca e pela castanha, que é a parte comestível, sendo composto por aproximadamente 75% de amêndoa e 25% de casca, mantendo suas características nutricionais que o tornaram um alimento fundamental ao longo da história da região.

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