Publicitário e empresário traduzem paixão pelo café em conteúdo digital e objeto de estudo
Para muitos, o café é apenas parte da rotina diária. No entanto, para outros, essa bebida se transforma em uma paixão profunda, servindo como ponto de partida para produção de conteúdo, experimentação e até investigação científica. O publicitário e professor universitário César Bechara e o empresário Álvaro Magri, ambos residentes em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, compartilham um interesse comum que vai muito além da simples xícara: eles buscam entender e testar o café em suas múltiplas dimensões.
Praticidade como ponto forte
A relação de César Bechara com o café nasceu de forma despretensiosa. Sem o hábito de consumir a bebida durante a juventude, ele começou a apreciar o café com mais frequência após adquirir uma máquina de cápsulas. A praticidade desse método abriu espaço para a curiosidade e, posteriormente, para a criação de conteúdo, que surgiu de maneira espontânea ao compartilhar receitas e experimentos com amigos. Com o tempo, seu trabalho ganhou público e consistência, acumulando mais de 3,6 mil seguidores em uma rede social.
Bechara aposta em uma abordagem acessível, com conteúdo voltado para o cotidiano. Com uma rotina intensa, ele prefere soluções rápidas e versáteis, explorando em seus vídeos diferentes intensidades, aromas e formatos proporcionados pelas cápsulas de expresso. "É uma forma de mostrar que o café pode ser simples, prático e ainda assim interessante. Eu gosto de café especial, mas o processo de moer grãos e preparar é mais demorado. As cápsulas permitem variar ao longo do dia, testar intensidades e aromas sem complicação", explica o publicitário. Esse consumo fragmentado se reflete na quantidade: ele costuma ingerir pequenas doses ao longo do dia, variando de dois até seis expressos, dependendo da rotina. Entre goles quentes e gelados, testa combinações que vão de perfis clássicos a opções aromatizadas, com notas como baunilha, caramelo ou especiarias.
Memória afetiva e investigação científica
Em outro extremo está Álvaro Magri, cuja relação com o café passa por memória afetiva e investigação. Neto de um produtor rural que cultivava café de maneira familiar, ele retomou o contato com a bebida anos depois, motivado por uma mudança alimentar: Álvaro e a esposa desenvolveram intolerância à lactose e passaram a buscar alternativas para o café da manhã. Foi nesse processo que ele descobriu os grãos especiais e seus benefícios.
Com formação em Ciências da Computação, Magri adotou uma postura investigativa, baseada em metodologia científica, para compreender um universo novo para ele. "A ideia é mostrar o porquê das coisas relacionadas ao café. É traduzir o conhecimento para o público", afirma. O movimento também surgiu como reação a conteúdos que, segundo ele, circulavam na internet sem embasamento técnico. Suas publicações abordam desde dúvidas comuns, como técnicas de preparo, até aspectos mais complexos, como variáveis físico-químicas que influenciam sabor e aroma. Atualmente, ele dialoga com mais de 23 mil seguidores. "O café parece simples, mas é uma bebida extremamente complexa, mais do que o vinho", destaca.
Essa complexidade também orienta sua visão sobre qualidade. Para Magri, um bom café envolve equilíbrio técnico — com menor amargor e maior riqueza de notas —, mas também depende da experiência sensorial individual. Ele prefere moderação e planejamento como forma de se precaver contra os efeitos da cafeína e desfrutar da qualidade da bebida. Pela manhã, divide com a esposa cerca de 300 ml de café coado, e à tarde, prepara cappuccinos para ambos. "O que vale é o perfil sensorial que ele desperta nas pessoas", explica.
Tendências de consumo no Brasil
Apesar dos contrastes, Bechara e Magri refletem um movimento maior: o café deixou de ser apenas um hábito automático para se tornar experiência, linguagem e até objeto de estudo. No Brasil, onde o consumo interno chega a quase 22 milhões de sacas anuais e representa cerca de 40% da produção nacional, os amantes da bebida seguem se reinventando.
O publicitário chama a atenção para estudos de consumo, que apontam o crescimento das bebidas prontas à base de café, conhecidas como "pronta-para-beber" ("ready to drink"), e para a ampliação do consumo de cafés gelados nos próximos anos. "Existe uma mudança gradual no comportamento. O café deixa de ser só uma bebida quente e passa a ser mais versátil, mais presente em diferentes momentos e formatos", observa Bechara. Esse movimento também acompanha transformações culturais, ressalta o publicitário. O café, além de produto, ganha força como elemento de sociabilidade, presente em encontros, reuniões e espaços de convivência.
Em média, os brasileiros consomem quatro xícaras de café por dia, impulsionando um dos maiores mercados do mundo. A paixão de Bechara e Magri ilustra como essa bebida pode unir praticidade, tradição e ciência, criando novas formas de apreciação e compartilhamento no cenário digital.



